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12.1.09

atropelamento e fuga




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No quarto estou sentada na beirada da cama. Penumbra. Estou confortavelmente cansada. Levanto, “a noite está encerrada, hora de ir, hora de fugir.” O homem adormecido ao meu lado me procura, devagar.

Um gesto tão íntimo, suavemente. “Não deve ser por mim que ele procura”. Insistente. “Não me custa nada, é só um abraço”. Deito e o braço dele cai sobre minha cintura, pesado e possessivo. Carinhos suaves o adormecem, satisfeito e cansado.

Penso naquela por quem o braço dele procura. Sozinha em algum outro quarto. Culpa. Fugir. Sair. Preciso sumir daqui. Não quero saber de detalhes. Não quero ouvir a estória por trás dessa carência. "Perigo garota, perigo".

O acaso juntou numa festa dois velhos desconhecidos. Sincronia. Acasos são mau sinal, grandes amores e grandes problemas começam por acaso. Fugir. Onde estão os bombeiros quando precisamos deles? Perigo!

A mão dele desliza até meu rosto, o nariz se encaixa na curva do meu pescoço de modo gostoso. “Vamos menina, hora de fugir, fim do tempo extra.” Tento fugir do abraço, mas ele se encaixa em mim. Beijo, murmúrios confusos, o nome de outra mulher em meu ouvido. "Cretino!" Minha mente emite todos os sinais de alerta, ele é um desastre, qualquer um pode ver. Fico.

Os alarmes de tempestade disparam. Inquieta olho o teto do quarto. Suspiro. A mão dele desliza até meu seio, cálida, a aliança brilha na meia-luz. "Cretino". O acaso termina aqui. Ele acorda. Esse sorriso é golpe baixo. Beijo sem palavras, sem futuro. Acaso. Ele parece faminto, carente, avassalador... "Droga!Perfeito! Ninguém vê que eu estou me perdendo?" Adormecemos juntos.

O sol nasce e eu saio na manhã fria, fugindo. O vestido de festa, o salto alto e as poucas horas de sono. "TÁXI!" Ele ficou pra trás. E eu esqueço, sempre esqueço. Deleto. A luz do sol me incomoda, então fecho a porta. Ainda posso ver o sorriso. "Droga!" Sinto o cheiro dele na minha pele. Um acaso, só um acaso. "Banho!", preciso lavar o cheiro dele da minha pele. Lágrimas? “Sem essa! Menina! Nada de drama!” Deletar: o cara é potencialmente perigoso! Campainha. Visto o roupão, pego a toalha, abro a porta: o sorriso está lá. Beijo, pacote completo. Entrega a domicilio. Beijo e problemas.

– Você esqueceu a carteira!

Ato falho, diria Freud. Ele tem uma voz gostosa. Esse cara é problema na certa.

– Fugiu de mim?

As mãos são mais rápidas que os olhos. Mágica. Estou na cama de novo. Abraço e perco o controle. Droga! Não dá pra fugir. O acaso me atropelou. Sincronia. O nariz dele em minha nuca. Sono.

Esqueço de fugir.

2 comentários:

Larissa Marques disse...

Rosa,
e me diga quem, em são ju´zo não se esqueceria?
Belo texto!

Rosa Cardoso disse...

Mas agente sempre pensa que pode fugir.Beijo.