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31.10.09

Do Meu Coração de Mulher


Pensando bem, não sou essa mulher fatal que você pensava. Aquelas histórias de sedução foram todas inventadas e esse ar superior, de quem sabe lidar com a
vida, é apenas autodefesa.
Aquelas frases filosóficas, foram só pra te impressionar, pra te passar essa
ilusão de intelectual, na verdade eu ainda nem sei se acredito nos valores
que me ensinaram, quanto mais em frases feitas e opiniões formadas!
Senta aí, vai! Deixe eu tirar os sapatos, desmanchar o penteado, retirar a
maquiagem; quero te mostrar que assim de perto não sou tão bonita quanto
pareço, por isso uso todos esses artifícios. É que no fundo tenho um medo
terrível de que você me ache feia, de que você encontre em mim uma série de
imperfeições.
Sabe, não quero mais usar essa máscara de mulher inatingível, de mulher forte
com punhos de aço. No íntimo me sinto uma pequena ave indefesa, leve demais
para enfrentar o vento e que deseja ficar no aconchego do ninho e ser mimada
até adormecer.
Olha pra mim, às vezes minha intimidade não tem brilho nenhum e você terá que
me amar muito para suportar essas minhas impotências.
Deixe eu tirar o casaco, tirar o cansaço, essa jornada dupla me deixa tão
carente. A convicção de independência afetiva? É tudo balela! Eu queria mesmo
era dividir a cama, a mesa, o banho...
Queria dividir os sentimentos, os sonhos, as ilusões... um pedaço de torta, uma
xícara de café, algum segredo...
Ah, eu tenho andado por aí, tenho sido tantas mulheres que não sou!
Quantas vezes me inventei e até me convenci da minha identidade.
Administrei minha liberdade.
Tomei vinho, troquei a lâmpada, abri sozinha o zíper do
vestido, decidi o meu destino com tanta segurança. Mas não previ que na
linha da minha vida estivesse demarcada uma paixão inesperada.
Agora, cá estou eu, trinta e poucos anos e toda atrapalhada, tentando um cruzar
de pernas diferente, um olhar mais grave, um molhar de lábios sensual... Mas
não sei direito o que fazer para agradar.

Confesso que isso me cansa um pouco. Queria mesmo era falar de todos os meus
medos, "dos seus medos?" você diria, como se eu nunca tivesse temido nada.
Queria lhe falar das minhas marcas de infância, dos animais que tive, do meu
primeiro dia de aula... Queria falar dessas coisas mais elementares, e lhe
levar à casa da minha mãe, lhe mostrar meu álbum
de retrato!
Ah, você queria falar alguma coisa? Está bem! Antes, só mais um coisinha: estou
morrendo de medo que você saia desta cena antes de mim, que você saia, à
francesa, desta história e eu tenha que recolocar minha máscara e me
reinventar, outra vez


Patrícia Gomes
Imagem: Pinçada no Imagebank.com

3 comentários:

Maria Júlia Pontes disse...

a insustentável insegurança do ser..
gostei Patrícia.
bjos

Larissa Marques disse...

Patrícia,
você me inspira!

Patrícia Gomes disse...

Obrigada, Meninas!!