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30.10.09

Retalhada



Ela invadiu a sala de provas, os manequins estavam todos vestidos, roupas de inverno.
Agarrou-se em meus braços e me arrastou até a ante-sala com olhar de fome. Começou a juntar todos os retalhos – dias de calor intenso – laranja- noites de insônia- roxo, manhãs de abstração- pálido, minutos de abstinência da alma- preto, dias ensolarados caminhando de mão dadas - azul, lembranças de 20 anos passado s - incolor, regresso do seu amor – verde.
Não tinha a menor aptidão para o ofício de coser, mas me usava, implorava sentada aos pés da máquina de costuras – falava sobre desencontros e momentos de gasturas.
Torta, era assim que permanecia - tombada pelos anseios, dúvidas, medos.
Comecei as emendas – ela apenas ditava a sequência das cores, em cada uma relatava as angústias, alegrias, ardores e o cappuccino que ele sempre preparava e levava até a cama depois da noite de sexo descomedido e carícias ternas até adormecerem – efeito do vinho – e pedia que exagerasse em todas as nuances do vinho tinto – do vermelho rubi até o vermelho mais escuro. Sentia-se próxima do passado quase agora que haveria de ressurgir assim que eu, exausta, chegasse ao fim.
Quando o dia amanheceu, seus olhos ainda estavam atentos a cada retalho cosido.

Imagem: google

4 comentários:

Allan Vidigal disse...

:-)

Maria Júlia Pontes disse...

hummm?Trouble?

FláPerez (BláBlá) disse...

gostei mto, pq agora vejo uma continuação, um tema sendo desenrolado.

Larissa Marques disse...

só é, muito bom!