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Medusa,Prometeu, totens e espelhos
hoje pensei tanto nessa coisa doida
pensei no teu sorriso
sorri da tua voz
cansei de te ver
mas Gostei de te sorrir
da nesga da janela
donde despenca esse céu
eu te chamo
doidivanamente
tempestuoso vento trás teu nome
e vens arrastado e sereno
contar dos nadas abissais
braços remotos falam de totens colossais
cabeças de Górgonas caem dos bolsos
recolho cacos no colo
acaricio teus cabelos
sorrimos e eu
desentendo
deslizo dedos tortos
pelo reverso desses medos
quietos e caros
roubei a égide de uma deusa tão doida quanto eu
numa tarde quieta de abril
para congelar sorrisos
prometeu empedrar paixões e terrores
Odisseu, Aquiles, Penélope, Zeus, todos Prometeu
afrodite te escondeu sob um manto fino
oblíquo tu desvias dessa defesa incerta,
ri das serpentes que invento,
abraça-me os joelhos
através dos espelhos em que me guardas
deslinda venenos
destrava portas
ilumina desencantos febris
1.1.13
10.12.12
Rachadura
Você estanca o corte, tampa a ferida,
(da maneira que pode)
e um dia
essa defesa cai,
a mão afrouxa, deixa de apertar,
(porque uma outra mão convida)
então
nada contém a correnteza forte
- ela sai desabrida,
tão raivosa,
correndo o tempo perdido por ser escondida -
o remédio é afogar-se:
nadar contra essa vontade toda
não pode ser considerado Vida.
(da maneira que pode)
e um dia
essa defesa cai,
a mão afrouxa, deixa de apertar,
(porque uma outra mão convida)
então
nada contém a correnteza forte
- ela sai desabrida,
tão raivosa,
correndo o tempo perdido por ser escondida -
o remédio é afogar-se:
nadar contra essa vontade toda
não pode ser considerado Vida.
1.12.12
Habitualidades

Se você
em nossa sala,
entre uma fala e outra,
perguntar sobre nosso amor,
saberei dizer palavras soltas
que não traduzem
absolutamente
nada.
Porque, querido, nós somos feitos
De uma matéria que, para os outros,
É esquecida:
Picotados
de papel e sonhos,
flashes de insônias,
Somos, meu pequeno,
Vida.
(Jessiely Soares)
25.11.12
Passeio das Virtudes
Em cuidado de vós
não vos debruceis nessa varanda
não vos debruceis nessa varanda
que é pouco segura a cascata de ferro
a tremer até ao Douro
olhai bem este sítios queridos
vede-os com derradeiro olhar
em copas de tormento tomai
o que de chão vos restar
que nesta rua não há baloiço
que não vos lance em alto mar
cinco janelas, cinco cavaleiros
a cavalo em gaivotas que relincham
levam esta carta à minha infância
e todos espreitam na rua
o candor que nela vai bordado:
o teu olhar de baloiço à janela
que outrora embalava a cidade ao meu lado
aqui regresso
em vela caída que chama
a fruta demasiado doce à mercearia
e ao rio a verdade que resvala na rua
segura em aperto de mãos
entre bons dias e passadas suspensas à noite
como o violino de uma criança
que vencesse o carrilhão dos Clérigos
ou o Outono que abandonaste
debruçado em mim até ao mar
em cuidado de vós
não quereis ser desta rua sem o serdes
que não há verdes em equilíbrio
que aqui não tombem
em murmúrio de nevoeiro quando há luar
por aqui passai de um verso a outro
como um soldado de chumbo
sem hesitar, cantai aos cavaleiros
e bailai com as gaivotas sobre o gelo
mas não pouseis, visitante, com elas
que asas não vos chegarão para levantar
a mim deixai-me quieta
que o tempo agora é este:
uma rua inclinada para as tuas mãos
10.11.12
Esparta
A lágrima do macho forte
derramada diante da mulher
que lambe das suas costas toda a dor da guerra
deveria mesmo ser colhida em frascos.
Nunca chorar na frente da amada
é para os homens fracos.
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