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28.7.09

Banhos de Maria















A paisagem urbana ainda era tímida nos arredores de Vigia. Seus casarões antigos no melhor estilo colonial que outrora foram sedes de grandes fazendas dos senhores do engenho contrastavam com pequenas construções irregulares que propagavam de forma desordenada desde o centro da cidade. Suas ruas eram pavimentadas por paralelepípedos e o mercado exibia uma certa apatia pelo progresso.
Era justamente isso que incomodava Maria. Acostumada a viver nos grandes centros, viu-se privada de tudo que a excitava: a lotação do trem, a violência das esquinas, assédios contra sua moral, atentados ao pudor, estupros, assassinatos, baladas noturnas, álcool e amantes. Nada disso encontraria na pacata cidade para onde seu marido, gerente de um pequeno banco, fora transferido.
De sorte que certo dia, sozinha, durante o banho matinal, notara, do vitrô aberto, uma construção que se erguia e nela seus poucos operários. Nesse instante, sentiu um forte espasmo na vagina, uma excitação lancinante tomou conta de seu corpo. E, debaixo da ducha fria, começou a se masturbar. Imaginava-se sendo vista, assediada e violentada por aqueles estranhos. Uma fantasia nova brotara em seu seio. Um prazer que seu marido jamais a proporcionaria. Um prazer solitário, destilado de sua agonia.
E foi dentro da concepção de exílio daquilo que sempre vivera e que a consumia de desejos que fizera dela uma nova mulher. Passou a experimentar sensações diferentes e distantes de sua realidade. Percebeu que seu casamento, de vinte anos, era um imenso martírio. Que o tempo que escoava por suas mãos, sendo sua mocidade era sua escravidão. Que as noites vazias e mal dormidas eram a luxúria do seu dia.
Tomada por sua lascívia, passara a mentir ao marido e a entregar-se aos banhos solitários. Sabia, mais que ele, dar-se o prazer do sexo. E ali, despida dos pudores e a mercê das vistas alheias que o vitrô aberto permitia, valia-se de sua profusa alucinação a intentar o orgasmo derradeiro.
Do outro lado da pequena janela, a construção seguia seu fluxo. Os operários equilibrados nos andaimes começaram a notar os anseios sexuais da ávida mulher. Mutilados de afeição e mal afeitos à sua liberalidade, se excitavam com facilidade a ponto de sucumbirem ao mesmo desejo.
E como num ato lógico onde uma coisa leva à outra, os três homens induzidos pelo instinto animal conspiraram entre eles. Naquela tarde, enquanto a obra era abandonada, Maria os atendia à porta da casa. Surpreendida pela mira de sua própria petulância, tentou em vão empreender uma fuga. Encurralada pelos mecenas, gritou por seu marido que cedo não voltaria.
Sua reação ativou a ira dos brutamontes. E o que antes fora sua fantasia agora seria sua insônia. Estuprada, teve o rosto socado, a roupa rasgada, o nariz quebrado, as mãos atadas ao pé do sofá da sala. Trancada na própria casa com seus algozes, Maria era submetida a todo tipo de maus tratos.
Depois desse momento de sevícia, que temera por sua vida, Maria relaxou. Notou que apesar do susto, sentia-se feliz. Ainda nua e suja das secreções estranhas aproximou-se da janela a conferir a tranquilidade da rua. Longe, avistou seu marido que tratava com um dos seus carrascos. E ao notar seu sorriso, tão difícil de se perceber, é que compreendeu que aquilo tudo havia sido uma armação. Aliviada, chegou à conclusão de que ele era realmente o homem de sua vida.


(texto de Maria Glória)

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14 comentários:

maicon disse...

Talvez o Nelson. Sei lá, acho que não é ele não...talvez o Zulmar

Cesar Veneziani disse...

Priiiiiiiiiiiiiii...
(O juiz já apitou, então tenho que chutar!)

André Luiz

Larissa Marques disse...

nenhum gol, podem continuar chutando!

Leonardo Quintela disse...

chuto no paulinho. se doer, doeu!

Bento Calaça disse...

Maicon?
tem alguma coisa do desgraçado ali!
o cara nunca escreveu prosa no
bar, mais acho ser ele.

Larissa Marques disse...

não chutem os pobres, as partes baixas costumam ficar doloridas depois!

malu sant'anna disse...

deliciosa ousadia. não arrisco um palpite. é fera! proseou redondinho...

(sheyladecastilhoº disse...

tão bom o texto, cheio de imagens que descobrir o autor se torna secundário...

maravilha!!

Blá Blá disse...

Deve ser o Nelson ...versão moderna e mto boa do conto de Nelson Rodrigues, do livro "A vida como ela é", o conto é "Curiosa".


é o Nelson

nelson disse...

Blá Blá, pára de insinuar, mulher. rs.

Glauber Vieira disse...

No chute: Cristiano Deveras.

Larissa Marques disse...

é o Nelson, e o ganhador é o Maicon.
Mande-me seu endereço de correspondência por e-mail!

Blá Blá disse...

ganha o primeiro que falou?

Blá Blá disse...

chuif,chuif.
ele tava na dúvida rsrsrsrs
(perdi o livro!!)
parabéns, Maicon