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31.1.10

A noiva morta



   Atravessou a sala ciente dos olhares, indiferente aos comentários murmurados. Viu alguém rindo e pensou que era realmente engraçado. A idéia do que ele queria fazer rondando sua cabeça.
              “Ela era tão jovem... Vai direto pro céu...”
             "Eles tinham um namoro-padrão, padrão 1911 e iam casar em uma semana. Mãos dadas, beijos castos. "
             “Coisa sem sentido...”
             O burburinho das pessoas atravessava seu torpor e o deixava vagamente irritado. Iria pro inferno sem escalas só pelas coisas que aconteceram ontem. O bispo lhe acena um chamado que ele finge não ver.
              “É hoje de manhã, parece que foi um aneurisma...”
             Alguém o abraça e ele se vê refletido no espelho grande da sala. Parece tão frio que se assusta. O primeiro abraço foi algum tipo de senha e uma multidão de braços o abraça. Vai se livrando como pode e continua avançando até a porta do quarto, que permanece fechada. Tanta gente! Como souberam? Foi tudo tão inesperado. A mãe aperta suas bochechas numa tentativa esquisita de consolá-lo. A porta do quarto se abre e ele a vê imóvel sobre a cama.

 “Na noite passada treze mortos foram encontrados na localidade de... Vítimas de mais um massacre comandado pelo... Desta vez não houve sobreviventes... A receita é simples tempere o frango com... questiona a eficiência das autoridades, totalmente incapazes de impedir esse crime hediondo... E atualmente se encontram ocupados com assuntos ultra-secretos de suma importância, segundo o novo...”
             A sogra mudava de canal sem realmente ouvir ou ver coisa alguma, embalada pelas imagens, acalentada pelas vozes. Em algum lugar do quarto o celular tocava. Não pretendia atender. Pouco depois o outro tocou até cair na secretária eletrônica. Ouviu a voz da morta dizendo alegremente: “é óbvio que não estou ou não quero te atender, deixa recado depois do sinal...”
             Era incrível o luar daquela noite. A lua estava cheia, seria melhor que não estivesse ela parecia dormir sob aquela luz. Uma lua imensa despejava enganos sobre idiotas apaixonados, idiotas como ele.
             Pediu para ficar só com a noiva morta e foi atendido: “deixem o rapaz se despedir” Ouviu o bispo sussurrar. Fechou a porta.

Não teria problemas com o som, tudo estava sendo abafado pelo tagarelar das pessoas e pela porta de madeira grossa, que ele mesmo tinha comprado na demolição de um casarão. Ela tinha adorado o presente.
             As luzes estavam sendo acesas, mas preferiu ficar com a lua e com os seus enganos. Abriu a blusa da moça expondo os seios brancos que nunca mais teria. Ela parecia dormir, ele retirava o resto das roupas e as dobrava cuidadosamente. Pensava vagamente na grande sacanagem que o destino tinha feito com ele enquanto beijava a pele fria e deslizava as mãos pelas ancas da moça.





(Rosa Cardoso)