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23.4.09

Marcas






Quando teu Garcia Márquez sem capa
caiu da prateleira
e teu corpo
serpenteou para pega-lo

Não poderias prever
que a divisão dos teus medos
constava de monossílabos
e pequenos estilhaços.

Se tu tivesses me previsto
eu não seria tua pintura
impressionista.

Nem Maria,

- por Eça, tão perfeitamente construída -

Cruzando, com rubro guarda sol,
as ruínas do teu fado.

Se teu Cem anos de solidão
não caísse no meu colo
assim,
como dado viciado do destino,
e a mancha não nos tivesse violentado

eu não te diria que o escuro tem braços,
e, somente nós não sabíamos.

Se tu me soubesses antes disso
eu nem saberia do teu abraço

Nem da marca indelével,
de um sabor que não cruza a calçada

Feita de manhãs e cafezais
pintado num passado amanhã despedaçado:

No dia em que teu Garcia Márquez sem capa
caiu da prateleira
em meu corpo

que, com fúria de pó e fera,

aninhou-se para entrega-lo.




(Jessiely Soares)
Imagem de: ..:Geisa:..

21.4.09

Veios Abertos de Latino-America


Uma conta de percepção
Pelos olhos me escapa
Não percebo a mão
Que me seca o rosto,
Não percebo o gosto
Que me prega o tapa,
Apenas a conta
Que dos olhos me escapa.

Uma conta de minh'alma
Pelos olhos me escorre,
Não percebo a calma
Com que ela se vai,
Como desce a face e cai
E no chão se infiltra e morre.
Apenas a conta
Que dos olhos me escorre.

Uma conta de meu reflexo
Em meus olhos se repete,
Não percebo o sexo
Que um dia tivera,
Tampouco a herança de hera
Que me escapou ao gilete.
Apenas a conta
Que em meus olhos se repete.

Uma conta de dor
Por meus olhos flui.
Não percebo o horror
Que da felicidade guardo,
Nem me furto ao fardo
Que a tragédia me intui.
Apenas a conta
Que de meus olhos flui.

Uma conta de amor
De meus olhos nasce,
Não é uma conta, é um calor
Que me arde a vista,
Que me inspira o artista
E que me queima a face.
É uma torrente
Que em meus olhos nasce.

E pelo tempo humano,
Finito reticente,
Choro o pranto cotidiano
Até o esgotamento,
E, o tejo sanguento
Vaza e mingua silente
Para então minha alma seca
Limpar seus olhos insolente.

(Selena Maria)


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19.4.09

Salto Quântico




Não importa a longitude dessa vida
Nem o tempo que levar pra que esmoreça,
Encho o cálice com o fel da despedida
Nele cuspo, o quebro e deixo que feneça.

Corrosiva é a flor magoada na ferida
Que se espalha, intentando que apodreça
Corpo e mente que não servem mais pra lida.
Fogo fátuo ou ilusão da mia cabeça?

Já descrente, com arroubos de homicida,
Perco a fé e peço a Deus que me enlouqueça
Pra evitar a dor de ver-me assim perdida.

Desafeta condição, até que eu esqueça
E que molde uma existência já parida,
Paralelamente rasa e vã, travessa...

Magmah

16.4.09

Festa em mim





Não. Não foi de repente
mas não me pergunte quando
que dei pra ser contente
quando estamos nos olhando

É uma festa dentro de mim!

E se assim pareço fria,
é por não saber o que dizer
mas muito me contentaria
te nomear meu novo você

E seria outra festa dentro de mim!



Imagem retirada do site:
www.textolivre.com.br/poemas/3678-seducao

15.4.09

Lenda das Estrelas
















Há muito tempo, muitíssimo tempo, quando ao era ainda nem cabia vez, um certo deus solteiro quis ter filhos e resolveu criar o homem. Imenso filho, pois fora a sua imagem, chamou-lhe Ado. Por ser, desde pequeno, colossalmente grande, passou a tratá-lo, afetuosamente, por Adão.

Pois bem, Adão era criança precoce e vivaz. Aprendera logo a obter favores do pai, juntando mãos e praticando telepatia. O pai atendia.

– Pai, há trezentos anos que sucumbo a esta paz celestial e agora me entedio.

O sábio e grande pai acorria a satisfazer o anseio do filho grande. Lá se ia Adão a brincar com anjos.

Trezentos outros anos se passaram e Adão:

– Pai, os anjos nada mais me acrescentam.

Calou-se, pensativo, o pai. Cinqüenta anos depois, inspirou ao filho:

– Dar-te-ei especial fruto para que compreendas a Natureza. Nele encontrarás Paraíso.

Lá se foi Adão intrigado com a novidade. Não se completariam dois séculos para que o filho grande ao grande pai retornasse:

– Pai, observei minuciosamente a fruta. Apalpeia-a e percebi que possuo tato. Dela emanou adocicado perfume e percebi olfato. O olfato me aguçou apetite, daí a mordi. Ecoou um ruído no interior do palato. Surpreendi-me e soltei um ai. Do ai me ocorreu pai. Então, em bom e alto tom, posso dizer que, de todas as descobertas, a que mais me impressionou foi tudo poder ver, menos a mim mesmo.

Por ser grande e sempre sábio o pai, entendeu, do filho, a vicissitude, e, com branda voz, anunciou:

– Terás uma companheira. E vá.

O grande pai, possuidor de incomensurável sabedoria, adaptou uma célula-tronco a seus propósitos. Lá iria Adão deixar se ver pelos olhos de fascinante criatura.

Certo dia, isto uns cem anos mais tarde, Adão reivindicaria:

– Pai, a instigante companheira que me deste por mulher, ora me aponta virtudes, ora me inflige críticas. Acometem-me terríveis dúvidas. Em seus olhos não mais suporto confiar.

Desconfortável com a aspereza do filho, qual se tornara insaciável na proporção do seu tamanho, trabalhou mil anos o grande pai, na paciência da sua sabedoria, presenteando-o com inusitado artefato. Mal se fora Adão a contemplar seu mimo, volta-se, indignado, ao seu criador:

¬– Pai, ocultaste-me de mim mesmo durante quase dois mil anos. Agora que tudo vejo e tudo sei, também tudo quero poder. Deves-me esta glória!

O sapientíssimo e grande pai projetou-se do trono, centenas de vezes mais rápido do que um raio, tomou o descomunal espelho cristalino que havia construído e arremeteu-o contra as paredes dos céus, espatifando-o em bilhões de pedaços.

Ao filho restaram, tão somente, as sementes de uma apodrecida maçã, que, mesmo desprezadas ao chão, teimaram arborizar. Vez por outra, algum descendente de Ado senta-se por debaixo da fronde de uma delas e, enquanto aguarda os brilhos da noite para cobiçar o Infinito, um fruto maduro lhe cai na cabeça.

Cesária Calamar


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14.4.09

Práticas Antigas

Eu dançarei sobre teu túmulo

Paganismo inerte

Música que aprendi de ouvido

no pulsar envenenado

que me perverte

mas sustenta o fôlego



Desfarei no giro dos quadris

a mandinga e a modorra

que lançaste-me sobre a libido

Terei teu jazigo revolvido

e até o verme cuidarei que morra

sob coreografias febris



Ocorre que as hordas infernais

são palavras esmurrando minha porta

e as logro no encanto das cantigas

E entre ritos novos e práticas antigas

vislumbro-te carne exposta

nas manchetes dos jornais



Breve dançarei sobre teu túmulo



Iriene Borges

13.4.09

já que os silêncios


já que os silêncios
aprofundaram-te a fala
que jaz, introspectiva
rogo que consiga eu me calar

pois não há por que de escrita
se não há ninguém para
interpretar

agasalha-te nesse ostracismo
forte e vicioso
que é ele que cabe
aos fortes de espírito
e sedentos de saber

fura esse engano torpe
que ilude os tímpanos
e alivia as dores

devassa as incondições
humanas
de enfrentamento da dor
e cataloga as incertezas
que habitam em tuas retinas

quem sabe daqui há dois mil
anos luz
descubram
Homo Sapiens sentimental
e comovam-se pois não passaria
de um homem-de-neandertal.

7.4.09

A Trompa de Falópio

























(retrato de Lucrezia Borgia por Bartolomeo Veneto)



A Trompa de Falópio

Falópio não toca trompa
ainda que lhe sobeje pompa
carece de talento.

Versejar sobre o intento gerativo
Parir a seco ostras sem pérolas, sem lauréis
Tornar-se trama de mamas e menestréis
Não querer não ser mas ainda assim existir
Criar e procriar as criaturas que criarão e procriarão
Genitora pai de ser o sacripanta do inferno cão.

Fêmea que doa à toa numa boa a coroa
Parafraseia a farsa falha chauvinista dos sem-chave
Lidera a rústica rebelião aparvalhada das esteiras de palha
Estorva a benemesse dos rufiões filhos da pútrida maquiada
Finca o ranço dos descamisados ornamentados com colares de ouro
Tonifica seu tônus, lubrifica seus ânus, flâmula causticante.
Abre-se, Césamo, para o porvir das ninfas criadas de Hades
Ardam, escapistas alpinistas de vulvas capilares proeminentes
O fusca ofusca suas vicissitudes vãs de pulhas ordinários
Crentes pernósticos atabalhoadamente jogam seus dados sovinas
Dementes, descontentam e gargalham euforicamente
Ser mulher é melhor que ser uma inútil e burra golfada de porra.

Gosto do gosto da uva
Porque ma tenho, linda e má.
Pairo
Gozo
Avalancho.

Volátil
Vulva.

(Lucrécia)

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1.4.09

Tigresa Noir

























Tigresa Noir

Babo saliva & sêmen & lodo & nó
Sobre o que suponho ser minha ilha estrangulada
Tenho tanto tétano quanto a síntese das flores
Desabroxadas no seio das seringas

Sigo nua para o hiloformismo súbito de atuar narcozes
Debruço-me num Can Can de bonequinhas de luxo
Enquanto deliro limusines lináceas com labirintite
& sorvo sonhos impostores, divididos

A síndrome do apuro sitiou meu leito
Colecionando matizes estrondosas
Arrancando máscaras de ar rarefeito
De onde foi estalo inicial, erupção de tocas

Oh, entre abraços frugais & mordidas pelantes
Travessias falcatruam essa fala
Jactações perdidas no abajur trêmulo da concordância
Lingeries de láudano despedaçadas

Pedidos de resgate que ejaculam
A febre dos domesticados na jaula da vaidade
Meu signo encharcado por bruxos & visceralismo
Meu estopim esticado em minaretes.


(Vania Draugi)


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