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26.3.09

[Descendo a ripa... na pele da carne mal passada]

O problema de quem
não quer acordar pra vida
é de quem não têm cinzas

nos lábios em pleno verão
e no frio dos olhos...
não salta nenhum vermelho

ou roxo;

próprio das pessoas
que não sorriem
com os círculos

nos rabos dos cachorros
na estrada,
são galhos secos
chutados ao vento
infelizmente
nascidos bem longe...
dos lençóis dos rios,

pensam que identificam
mutantes-marginais
e as novas filhas de Clarice
porém
são in-ca-pa-zes de perceber:
o que é ou não de Pessoa,
um falso Drummond
ou um simples tocador de sax
fajuto...


Verissimo,
insistentes,

afirmam que leem (?)

Rosangela Aliberti

25.3.09

Carlos, Carlota e Catarina

























Papai sempre quis um menino. Minha mãe não se importava nem um pouco com a criança que vinha, e, pra ser sincera, talvez estivesse pensando se engravidar fora a melhor idéia. De qualquer forma, nasci, para descontentamento de papai, Ana Catarina (sugestão de vovó Vicenza que gostava de nomes de rainhas). Papai deu duplo azar quando nasceu Carlota Beatriz e, com medo de levar a cabo um lobisomem na família, parou nela. Fomos criadas com carinho e proteção, um pouco exagerada, devo confessar, e um mundo cor de rosa, embora a mãe sempre dissesse que cor de rosa a deixasse enjoada. Papai nos proibia de brincar com as crianças na rua e na escola, cerceando, em grande parte, nosso contato com meninos. Não fosse pelos avós e a mãe, teria estudado em escola pra meninas ou parado num convento. Mas sempre amamos papai, mesmo através da carranca estampada e do pouco tato com nossos vestidos (-Marina! Cuida dessas meninas! Que vestidos são esses?).
É claro que o proibido levou a mim e à Carlota a buscarmos a descoberta. Carlota já fazia os meninos se perderem aos nove, eu me atrasei um pouco. Quando tive meu primeiro namoradinho a mãe percebeu algo e se colocou a conversar comigo. Disse aquelas coisas de mãe e, o mais importante: Não deixe seu pai saber. Tenho clara consciência de que o medo estivesse em ser culpada, mais do que em nos ver apanhar, ou algo do tipo. Também tenho clara consciência de que foi naquele momento que aprendi o valor da pequena mentira, do dissimular.
Talvez seja por isso que nas pequenas disputas com as amigas, ser chamada de dissimulada não me incomodava em coisa alguma. Carlota e eu ganhamos alguns apelidos feios na adolescência, mas, nada que não aprendemos a contornar. Assim, sempre as duas, não deixamos que nada interferisse em nossa sede pela descoberta.
Quando fiz 17 anos, papai faleceu. Teve um ataque cardíaco em meu aniversário, depois de passar mal. Ele vinha escondendo uma pressão alta desde sempre e nesta ocasião aprendi algo mais sobre esconder. Não me admira que Carlota e eu tenhamos nos casado em busca de tudo, menos de família.
Carlota deu mais sorte, em vários aspectos. Um marido aparentemente fiel, rico e um tanto ingênuo. Tricotávamos nossos casos aos sábados, depois do jantar, quando os homens falavam de “negócios”. Meu primeiro marido era um pouco mais manipulador, razoavelmente infiel, mas não deixava de ser rico. Tinha seus acessos de ciúmes sempre que eu expunha um de seus deslizes e sempre voltava de madrugada, com rosas. Aprendi a detestar rosas.
A mãe, no fim de seus dias, teve tempo de dizer que nos amava e que tinha orgulho de nós. Tínhamos certeza de que era porque não dávamos qualquer trabalho e ainda podíamos deixá-la aproveitar o finzinho da vida com mais dignidade do que papai conseguira.
No dia de sua morte, tanto eu quanto Carlota estávamos a seu lado, na cama. Sua voz era fraca e seus olhos bem distantes, mas teve tempo de nos dar sua última lição, em vida, porque ainda aprenderíamos algumas depois: Não importa o que aconteça, não deixem seu pai saber!
A princípio imaginamos que ela estivesse delirando, que talvez visse papai na beirada da consciência. Tudo se explica, na vida, entretanto. No enterro vimos aparecer a figura ainda forte do primo Carlos (um primo de mamãe que sempre freqüentou nossa casa e a quem chamávamos “irmão”, porque nos parecíamos). Engraçado como a verdade pode ser maquiada; naquele enterro, eu e Carlota juramos, com um olhar, Jamais contar nada a papai.


(Ana Catarina)



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17.3.09

A primeira menstruação a gente nunca esquece...


Que sangue era aquele que molhava minhas calças amarelas no meio das pernas quando cheguei em casa vinda da escola? Sorte é que ninguém parece ter reparado enquanto eu vinha pela rua... Sorte também é que era só atravessar a rua e eu estava em casa.

Que susto eu levei quando cheguei em casa e fui ao banheiro fazer xixi! O curioso é que eu acabava de sair de uma aula de Biologia... Fiquei branca como cera e sem ação quando vi aquela mancha enorme de sangue nas minhas calças e ainda por cima no meio das pernas! Como havia saído tanto sangue sem eu ter percebido nada?

Achei que estava doente ou coisa parecida. Nem almoçar eu quis! Pensei que estava com algum problema de estômago ou coisa do gênero. Mas estranhamente não me doía nada... Simplesmente empalideci e perdi o apetite. Mas acho que lá no meu íntimo e no meu inconsciente eu tinha alguma pista sobre o que acabava de me suceder, embora minha mãe não tivesse me preparado para essa visita que a partir de então chegaria todos os meses religiosamente em minha vida. O fato é que eu não estava preparada para recebê-la. Aquilo me pegou de surpresa.

Praticamente nada me foi dito. Descobri que ela aparece mensalmente pelo período de 5 dias e que de vez em quando traz uma dorzinha incômoda junto: a cólica menstrual, a qual graças a Deus, eu nunca tive muitas. A partir daí minha mãe passou a me presentear com um pacote de absorventes todos os meses, explicando que eu precisava retirar a fita adesiva e colar na calcinha, a fim de que ele cobrisse o fundilho dela e não vazasse aquele sangue pelas laterais.

Não existiam ainda absorventes com abas, de modo que era extremamente difícil não ocorrerem vazamentos, que por vezes manchavam as calcinhas. Era preciso então pô-las em água com sabão em pó para que ficassem de molho até diluir aquele sangue e voltarem às suas cores naturais. Aprendi que sabão em pó é tiro e queda para calcinhas com manchas de sangue provenientes da menstruação. Mas ainda hoje apesar das abas, as quais foram desenvolvidas justamente para evitar os tais vazamentos laterais, ainda acontecem pequenos acidentes, que resultam nessas manchas não programadas.

Ainda bem que 99% dos homens repelem a transa durante a menstruação. Já pensou que vergonha ser pega de surpresa pelo amante com a calcinha toda manchada? Para a gente que sofre o processo já é algo meio nojento, imagina para eles! É... apesar de toda a tecnologia já desenvolvida em torno da menstruação feminina sempre é possível ocorrerem acidentes não previstos no processo.

Mais tarde aprendi que usar roupas brancas durante esse período era bastante arriscado. Qualquer manchinha ou pingo de menstruação fora do absorvente poderia ser fatal! Muito mais fatal ainda, por que fica mais aparente! Afinal, determinadas roupas brancas não só pela cor, mas principalmente pelo tipo de tecido são perigosamente transparentes... E é aí que mora o perigo. Já pensou aquela mancha gigantesca ou pequenina que seja, ali aos olhos do mundo? Para todo o mundo saber que você está “naqueles dias”? O que você vai dizer? Que derrubou catchup? Que cortou seu dedo e o sangue escorreu até ali? Ou que sem querer sentou-se numa poça de sangue?

Em todo caso, era melhor não usá-las. Afinal, também não existia o chamado absorvente interno, algo do tipo O.B. e Tampax, as marcas mais conhecidas nessa linha e que para dizer a verdade não faço idéia de como se manipula tais objetos, visto nunca os ter usado. A contribuição mais notória dos internos é o fato de permitirem à mulher tomar banho em cachoeiras, piscinas, rios e mares sem precisar se preocupar em manchar as águas de vermelho. Cá entre nós às vezes essa visita aparece em momentos extremamente inoportunos, privando-nos de prazeres ansiados já há algum tempo, como ir à praia para passar alguns dias e justamente nesses dias a visita resolver dar as caras sem avisar. É terrivelmente frustrante. Bem, mas aí a pílula pode ser a grande salvação da lavoura, porque pelo menos ela regula o período da visita mensal, ou seja, a visita passa a aparecer sempre na mesma época em todos os meses, passando a ser então visita-programada em vez de visita-inesperada.

Só precisamos ter a esperteza de programar esses e outros tipos de passeios mais prazerosos fora dessa época. Ainda hoje, apesar do advento das abas e dos internos, por via das dúvidas acho mais seguro não arriscar, mesmo não sendo eu uma menstruadora do tipo torneira, daquelas que abre a válvula e esquece de fechar. Mas é algo que preciso repensar, por que, afinal, nem sempre a agenda social da gente está em sincronia com o período dessa visita familiar.

Se a vontade de tomar banho de rio, mar, cachoeira ou piscina for muito grande, das duas, uma: ou use um absorvente interno ou desista da empreitada. Mas jamais o faça usando um absorvente normal, até por que fica ridículo usar um absorvente trajando maiô ou biquíni e além disso, as chances de ele se desprender do lugar são gigantescas. Já pensou você tomando banho despreocupadamente, se divertindo a valer e de repente seu absorvente passa flutuando entre as pessoas ali ao seu redor? E pior, completamente avermelhado?

Da última vez em que fui à praia aconteceu-me algo deveras perturbador. Para o meu azar coincidiram a agenda social e o período da visita, de modo que ela se deu justamente na época em que me encontrava desfrutando os prazeres do mar. Assim sendo, interrompi imediatamente os banhos, visto que possuo algumas restrições quanto a absorventes internos. Mas o fato é que o calor estava intenso, todos indo para o mar e eu passando vontade. Impensadamente resolvi seguir os conselhos de minha irmã e fui ao mar menstruada usando um absorvente normal, trajando somente a parte de cima do biquíni. Por baixo permaneci de calcinha e shorts (e pior: daqueles mais larguinhos!). Devo confessar que não foi uma das tardes mais agradáveis de minha vida, porque me encontrava constantemente preocupada com o fato de perder o absorvente ali nas águas do mar na frente de todo aquele pessoal que dividia o espaço marítimo comigo.

A sensação de desconforto e o receio de "pagar um mico tamanho família" acompanharam-me o tempo todo. Resumindo: primeira e última vez que fiz isso na vida. Preciso repensar a história dos absorventes internos... Talvez sejam melhores do que passar vontade ou "pagar um mico gigantesco".

Também aparecem algumas cólicas de vez em quando e o sempre presente inchaço, mas nada que não se contorne com um chá ou mesmo um Tylenol ou algo do gênero. Enfim, nada tão desesperador assim. Apesar de que às vezes vêm umas dorzinhas que dá vontade de virar um tatu-bola para ver se passa.

Ah e a TPM então? A tal da Tensão Pré-Menstrual... Que eu me lembre nunca tive dessas coisas ou sofri algum tipo de chilique ou piti por conta disso, visto ser eu uma pessoa extremamente calma e tranqüila até mesmo para o meu gosto. Entretanto, há relatos de que 63% dos crimes cometidos por mulheres ocorrem justamente nessa fase. Portanto, homens (amantes, namorados, namoridos, maridos, ficantes e afins) pensem duas vezes ao "pisar na bola" com uma mulher nesse estado ou ao menos sejam mais cuidadosos nas suas eventuais "puladas de cerca". O perigo pode estar ao seu lado...

E assim eu me descobri mulher. Meio inusitadamente e até mesmo comicamente, é verdade, mas me descobri.

Alessa B.

Cabelos grisalhos
























Rosto liso de preocupações, olhos faiscando hormônios, cabelos ao vento, calça justa, peitos apontando para o céu brilhante.
Vá, minha neta, vá viver a vida.
Cedinho, na padaria, um menino chamou-me bruxa velha. Chorei o dia inteiro não ter vivido outros homens. Somente o vovô. Que já morreu.
Vá, minha querida, beije muito. Beije muitos. Beije muito muitos. Beijo na boca. Beijo de língua. Muita língua. Beije. Sugue poemas.
Hoje, meu aniversário, 82 anos, meus cabelos estão em neve, as mamas apontando para o inferno opaco. Sobrou-me apenas o pau da vassoura entre as pernas.

(texto de Doralina Santana)

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13.3.09

Culinária estranha

Bolinhos salgados fritando por imersão dentro dos meus olhos e do lado de fora, muita gente feliz com sexo de liquidificador. Nada mal para a pressa noturna em que meus excessos se gastam por si.

Versos p'ra ti




Olhei-te um belo dia e me enxerguei
Lá dentro da tua alma com clareza.
Quis dar pra ti o tanto que guardei
Durante o tempo todo de incerteza.

Temia fossem logros teus afagos,
Fugia dessa luz que hoje me ofusca.
Agora quero haurir, sorver aos tragos
Essa energia tua que me busca.

Confesso, havia em mim a mansa e a louca,
Uma se achava e a outra se escondia.
Identidade eu tinha muito pouca

E o meu sentir então se confundia.
Depois que me pousaste o beijo à boca,
Vi que estou toda na tua poesia...

Magmah

12.3.09

fotografia em preto e branco

















fotografia em preto e branco
enterrava-se
entre palavras doces
e o terno desafio
de ser branda
diante das dores

era candura
ao beijar-te a boca
que trazia pavor
e silêncio

não se assombrava com nada
mergulhada em olhos azuis
poderia respirar liberdade

sonhava que o ventre alheio
só trouxesse do mundo
gozo e felicidade

e mesmo apaixonada
percebia-te todos defeitos
não o exaltava
em versos cegos

por bem querer
resignou-se
em cultuar o erro
o manco e a ausência

e suave sobrevivia
à espera de sua volta
sentada na soleira.

10.3.09

As cartas que Não Mandei




Você me pergunta o que diria nas cartas que não mandei. Não sei. Há tantas coisas que ficam por dizer, pequenos sussurros não ditos escondidos pelos cantos das conversas.

Poderia dizer que te amo com letras grandes, apenas para te fazer sorrir. Você sempre reclama por que digo que apenas gosto, que tenho afeto, reclama pelo Eu te Amo não dito.

Poderia envelopar o abraço que não dei nos dias em que não fui te ver.

Falamos tanto e ainda assim você quer mais. Não sei se há algo além, não há segredos a contar já te disse todos. Acho que está enganado o que quer mesmo é envelopar o silêncio. Sabe aquele silêncio bom e cúmplice?

Acho que gostaria disso.

Então nessa carta que talvez eu nunca mande,que talvez jamais te alcance eu te enviaria meu abraço,minha pele silenciosamente encostada na tua enquanto ouvimos a chuva caindo mansamente.




* tela : The Letter oléo sobre tela de David Carmack Lewis http://davidcarmacklewis.com/portfolio/africa.htm

Quem é Rosa-Flor?
























Bem-me-quer

sou sonho sempre sensível
sou busca sempre incansável de amor
me desdobro multiplico
aplico energia onde for possível
sou filha amiga amante confidente
sempre presente
incansavelmente
desde menina é minha sina
mas sou frágil delicada
por trás desta alta murada
que um simples olhar faz ruir

ninguém vê
me camuflo sou flor
sou rosa margarida dália hortência
faça comigo o jogo do bem-me-quer
dispo de minhas pétalas
mas não perco minha essência
sou mulher.


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9.3.09

Resolvi guardar silêncio ontem


Os 1440 minutos que passaram, nesse 8 de março, foram pouco para guardar silêncio!
Um minuto de silêncio pelas meninas mutiladas, que têm seus clitóris e seu direito de prazer arrancados!
Outro pelas meninas aliciadas pelo tráfico sexual!
Pelas vítimas de pedofilia, pelas vítimas de estupro, pela corda mais frágil da sociedade!
Outro pelas mulheres negras, brancas, índias, asiáticas desempregadas, exploradas, escravizadas, oprimidas, esquecidas!
Um minuto de silêncio pelas mulheres que choram seus filhos mortos em guerras!
Não aceito um dia internacional da mulher, desejo todos os dias internacionais de respeito à mulher!

5.3.09

Despedida






Senhor,

a tarde cai
sob a palidez
da névoa

das coisas que construístes.

Cortei
os pulsos
e os desvarios

que plantei,
sombria,
na aridez da terra

triste.

A culpa não é minha

tu me fizestes de carne,
vento e sangue, neblina.

e tudo isso me dói.

Dores muito maiores
que esse vermelho que berra.

Eu não pedi coração
Menos ainda, para ser eterna.

Se me querias
Vulto de dor para posteridade

Poderias ter me feito pedra.


(Jessiely Soares)

3.3.09

Mulher de 30
eu me viro nos trinta!
são anos de praia
e mudanças de estações

é o tempo que ensina
o que na vida a pena valha
sem ter complicações

o amor produz a melanina
que pigmenta e talha
a idade das decisões

não quero uma doutrina
porque pra mim atrapalha
ter intensas emoções

Autora: Lena Casas Novas
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