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30.9.09

brasileiros e brasileiras!


Dizem que mulher de bigode nem o diabo pode... Ando desconfiada de um cabra-macho que veio boiando desde a nascente no Maranhão até um afluente em Brasília – seu habitat. É uma espécie de marimbondo com bigode, que cospe fogo, dá até medo, ninguém pode com ele, seria então uma fêmea? Neste pântano, onde deságua todos os detritos de lavagem de dinheiro, lavagem cerebral e outras sujeiras, além deste inseto, vivem espécies de cobras venenosas, papagaios, sanguessugas e moscas brancas. Hoje, com o fenômeno desenvolvimento sustentável, eu fico preocupada com as gerações futuras, pois esses seres vivos não entrarão em extinção – um paradoxo! Mas, já que não se pode tocar no poder da natureza... seria politicamente correto abrir o local para visitação, onde todas as pessoas teriam acesso ao comportamento dos seres que se perpetuam na biodiversidade política.

(nave)rdade

distraída e desastrada em seus destroços, ellla se viu trôpega no tráfego dos astros
e era a maior testemunha de todos os seus passos dados em falso.
sabia da travessia no céu, de vênus nua sem versos e camisas
mas não sabia que a morte a lhe beijar a face um dia lhe viria e que lhe cobraria a parte que lhe tomou, quando não supunha saber que brincava sem perceber, de pega e esconde com o possível antigo amor.
impossível sim, seria negar a falta, pois já não podia, nem queria... e não devia.
o álcool do hálito aliciavam palavras com maestria...vísceras retorciam, enquanto ellla espelia as negações da dor.
ardor que sentia na pele gelada e na boca que não sorria... sim, a dor ardia na parede fria...enquanto olhos atentos lhe ouviam, verdades da boca sem rimas dellla caíam
no colo e no solo, adubando ou talvez intoxicando, mas com certeza atraindo polos.
e tudo que nunca foi dito, ellla dizia
o gosto que não esquecia, sentia
o carinho que nunca foi feito, agora fluía...
flutuava nas nuvens atrasada, sem saber do amargor que é tentar voltar no tempo...
pois o tempo nunca para, e é roedor das tentativas de sorte e de planos, e um dia nos joga na cara, os ridículos medos de inevitáveis enganos...
e enquanto os olhos dellla transbordavam de loucas verdades, já era o tempo de embarcar, novamente na nave.
sozinha... na nave vermelha rumo ao castelo, sangrando o castigo e o prazer de sobreviver ao inferno e também às delicias das línguas sorvidas em elo. mas enfim, agora sim... ellla se rendia à transparência do futuro que talvez por grande sorte, nada prometia.
pois estava longe, distante demais, de mais uma noite se se tingir de dia...mas ellla sem culpa, sem medo e com gana, enfim sorria... por tudo, quem sabe por nada, talvez apenas pela boca molhada e saboreada pela prata do beijo que tomou por desejo.coisa nada pouca esse tanto de desejo de vícios e versos... da vida, da sorte e da lúdica e sempre citada idolatrada morte que desta vez, foi para ellla quem lhe trouxe a vida.
como confessou, não dublou aquele corpo depois da última partida,apenas o assiste pela janela da nave, a poetar e talvez viver o que ainda lhes reste ou quem sabe lhes falte, por merecimento e reconhecimento nesse céu poético e louco da nave nunca escolhida...


(sheyladecastilhoº

No escuro



“Amor é primo da morte, e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam), a cada instante de amor.”
Carlos Drummond de Andrade



No escuro


Capaz de afrontar a qualquer deus,
O amor, que é efêmero e fugaz,
Por mais que se mostre pertinaz,
Só é absoluto após o Adeus.

Tão frágil e vago, é só um véu
Que nos venda os olhos ao acaso.
Limite de vida seu é raso
E lavra ilusões como em cinzel.

Destino traçado em nossa palma,
Tatua um projeto de futuro
E em sonhos consome toda a calma

Expondo e cavando fundo o puro
Inferno no céu da própria alma.
Só se ama tateando vãos no escuro...


Magmah

Almiscarada - Flá Perez

Talvez lhe dê um pouco de trabalho
essa mulher que anda na rua
e todos olham.

Vai lhe tirar, quem sabe,
o sono
vê-la sorrir, adormecida,
sabê-la ao Deus dará,
sem seu olhar de dono.

Mas ela vale a pena.

É um cataclisma
de partir Pangéia ao meio,
revirar o eixo da Terra,
mudar rota de estrelas
e das onze esferas.

É um evento de extinção em massa,
essa loira falsa,
com magma de morena.

28.9.09

Solstício de verão















Solstício de verão


C'est la vie!
Me desamarra amor
não me faz tua
assim não

Desata o que não ata
e deixa aberta a porta

Vie, l'amour!
Depois volta
engata e me ata
desacata
e ama

De porta aberta
amor de sol
lençol
chama.

27.9.09

Ressaca da carne





O corpo insiste em querer
o toque e o prazer
para manter a embriaguez,

contorce cada músculo,
um de cada vez;
abstinência do desejo.

ressaca do sexo e do beijo,
sintomas inconfundíveis:
o peito retumba
a mente endoidece
em imagens intraduzíveis,

você anoitece antes do dia
o gosto amargo
a apatia,

Como quem entra corrente sanguínea
chega ao cérebro,
excesso = intoxicação =
ressaca de paixão,

é fato,
outra dose para rebater:
negro, moreno,loiro,amarelo ou ruivo,

com muita disposição,

Não tenha medo não,
envereda!
é tiro e queda,
literal(mente).


imagem: google - by sunset

Despedidas


Tudo começou como uma brincadeira, pega, corre, ri, ama. No final nada passou de uma simples ilusão, a ilusão da perfeição que não exista.
Lembro-me do gosto agridoce que sua boca exalava e do tanto que eu sonhava quando te via e não te via, um sonho inacreditável e inacabável. Até que eu percebi que meu amor não era meu amor, ele só estava mentindo. Dizendo inverdades, mostrando a face clara da juventude, enquanto envelhecíamos juntos, eu vi o lado oculto e inerte que ele tinha...Tem.
Quando corria, eu corria sozinha e ele me olhava nem se preocupar, quando eu sonhava eu sonhava sozinha e ele ficava acordado, quando eu estava acordava vivendo ele dormia e sonhava aventuras que ninguém mais pode saber o que são, ele nunca revelará.
E enquanto eu colocava poesia e ele se tornava o senhor da minha vida e meus sonhos, ele a lia, e criticava, e odiava todo a lírica. E eu observava perplexa o meu sonho, minha obtusa esperança de uma paixão louca, desesperada e intrínseca.
O que eu fiz para que não me amasse? Eu sempre fui sua, sempre te amei como nunca pude alguma outra pessoa, e as poucas coisas que preciso, mostro, digo não me entregas.
Tudo acabou como o final de jogo, sem tristeza, sem amor, sem despedidas.
Sem despedidas.

AVESSO



Meu corpo é teu
Moro no abismo
Imersa em teu olhar

Meu desejo é teu
E alimenta essa voragem
Teu olhar me consome

Sigo desequilibrada
Sem norte
Sem rumo

Teus olhos
Teu desejo
Teu corpo

Sobra a alma essa desconhecida
Que se esconde no sorvedouro
Dos teus cataclismos


(rosa cardoso)





imagem :êxtase de teresa avila de Gian Lorenzo Bernini

26.9.09

Putta


A dois palmos de esquina os
olhos inundam-se da luz
piscada de um poste e se preparam
para a pintura imunda.

Na esquina, um farol alto grita e
não há vagas para lágrimas,
a noite corre pelos cantos,
enquanto a boca escoa beijos;

mãos passeiam pelas vagas do corpo,
dentes tatuam a pele macilenta
enquanto geme a cama velha e
sorrisos sem razão morrem entre dentes.

Em dois palmos de esquina
cinqüenta reais consolam o
sexo em desalinho e quase
faz as pazes com Deus.

Patrícia Gomes
Imagem: Smokedval


Ella





"Se as minhas mãos pudessem desfolhar"

                                         (Garcia Lorca)

Ela, de acordo com o dicionário, flexão feminina de ele. Metamorfose que cabia no vão de uma porta. Algo inconcluso, como um bordado de meio Sol, que não era sequer eclipse.
De mãos meio acorrentadas, com alguns trocados no bolso, era a imagem da perseverança falha.

Nada lhe pertencia.
Apenas recitava ― calada ― alguns poemas de Lorca, em um tempo de desabitar desejos.

Universo incompleto, desprovida de átomos.
Uma nudez, uma paisagem de seca.

Sequer os desvarios lhe perteciam.

Na breve contagem dos dias, se sentia a perfeição de porcelana: Mãos definidas e paradas, coração de singeleza opaca, boneca indiferente com rosto bonito.

E uma metade de um poema esquecido para ser escrito na lápide.



(Jessiely Soares)

25.9.09

entrelinhas e pontos...


deixei de existir n-vezes
por causa da sua existência,

até neguei três vezes
a minha forte essência,

que a onda levou por um tempo,
mas foi devolvida pelo banzeiro

num arremesso porta a dentro

escondi no meio do nada,
sem prazo de entrega
para corpo e alma,

entrei em simetria axial
arrebentei a crisálida,
ficou apenas um ponto:final.


Texto: Lena Casas Novas

Imagem: Google