Dizem que mulher de bigode nem o diabo pode... Ando desconfiada de um cabra-macho que veio boiando desde a nascente no Maranhão até um afluente em Brasília – seu habitat. É uma espécie de marimbondo com bigode, que cospe fogo, dá até medo, ninguém pode com ele, seria então uma fêmea? Neste pântano, onde deságua todos os detritos de lavagem de dinheiro, lavagem cerebral e outras sujeiras, além deste inseto, vivem espécies de cobras venenosas, papagaios, sanguessugas e moscas brancas. Hoje, com o fenômeno desenvolvimento sustentável, eu fico preocupada com as gerações futuras, pois esses seres vivos não entrarão em extinção – um paradoxo! Mas, já que não se pode tocar no poder da natureza... seria politicamente correto abrir o local para visitação, onde todas as pessoas teriam acesso ao comportamento dos seres que se perpetuam na biodiversidade política.
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30.9.09
(nave)rdade
o álcool do hálito aliciavam palavras com maestria...vísceras retorciam, enquanto ellla espelia as negações da dor.
No escuro

“Amor é primo da morte, e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam), a cada instante de amor.”
Carlos Drummond de Andrade
No escuro
Capaz de afrontar a qualquer deus,
O amor, que é efêmero e fugaz,
Por mais que se mostre pertinaz,
Só é absoluto após o Adeus.
Tão frágil e vago, é só um véu
Que nos venda os olhos ao acaso.
Limite de vida seu é raso
E lavra ilusões como em cinzel.
Destino traçado em nossa palma,
Tatua um projeto de futuro
E em sonhos consome toda a calma
Expondo e cavando fundo o puro
Inferno no céu da própria alma.
Só se ama tateando vãos no escuro...
Magmah
Almiscarada - Flá Perez
essa mulher que anda na rua
e todos olham.
Vai lhe tirar, quem sabe,
o sono
vê-la sorrir, adormecida,
sabê-la ao Deus dará,
sem seu olhar de dono.
Mas ela vale a pena.
É um cataclisma
de partir Pangéia ao meio,
revirar o eixo da Terra,
mudar rota de estrelas
e das onze esferas.
É um evento de extinção em massa,
essa loira falsa,
com magma de morena.
28.9.09
Solstício de verão
27.9.09
Ressaca da carne

O corpo insiste em querer
o toque e o prazer
para manter a embriaguez,
contorce cada músculo,
um de cada vez;
abstinência do desejo.
ressaca do sexo e do beijo,
sintomas inconfundíveis:
o peito retumba
a mente endoidece
em imagens intraduzíveis,
você anoitece antes do dia
o gosto amargo
a apatia,
Como quem entra corrente sanguínea
chega ao cérebro,
excesso = intoxicação =
ressaca de paixão,
é fato,
outra dose para rebater:
negro, moreno,loiro,amarelo ou ruivo,
com muita disposição,
Não tenha medo não,
envereda!
é tiro e queda,
literal(mente).
imagem: google - by sunset
Despedidas

Lembro-me do gosto agridoce que sua boca exalava e do tanto que eu sonhava quando te via e não te via, um sonho inacreditável e inacabável. Até que eu percebi que meu amor não era meu amor, ele só estava mentindo. Dizendo inverdades, mostrando a face clara da juventude, enquanto envelhecíamos juntos, eu vi o lado oculto e inerte que ele tinha...Tem.
Quando corria, eu corria sozinha e ele me olhava nem se preocupar, quando eu sonhava eu sonhava sozinha e ele ficava acordado, quando eu estava acordava vivendo ele dormia e sonhava aventuras que ninguém mais pode saber o que são, ele nunca revelará.
E enquanto eu colocava poesia e ele se tornava o senhor da minha vida e meus sonhos, ele a lia, e criticava, e odiava todo a lírica. E eu observava perplexa o meu sonho, minha obtusa esperança de uma paixão louca, desesperada e intrínseca.
O que eu fiz para que não me amasse? Eu sempre fui sua, sempre te amei como nunca pude alguma outra pessoa, e as poucas coisas que preciso, mostro, digo não me entregas.
Tudo acabou como o final de jogo, sem tristeza, sem amor, sem despedidas.
Sem despedidas.
AVESSO

Meu corpo é teu
Moro no abismo
Imersa em teu olhar
Meu desejo é teu
E alimenta essa voragem
Teu olhar me consome
Sigo desequilibrada
Sem norte
Sem rumo
Teus olhos
Teu desejo
Teu corpo
Sobra a alma essa desconhecida
Que se esconde no sorvedouro
Dos teus cataclismos
(rosa cardoso)
imagem :êxtase de teresa avila de Gian Lorenzo Bernini
26.9.09
Putta

A dois palmos de esquina os
olhos inundam-se da luz
piscada de um poste e se preparam
para a pintura imunda.
Na esquina, um farol alto grita e
não há vagas para lágrimas,
a noite corre pelos cantos,
enquanto a boca escoa beijos;
mãos passeiam pelas vagas do corpo,
dentes tatuam a pele macilenta
enquanto geme a cama velha e
sorrisos sem razão morrem entre dentes.
Em dois palmos de esquina
cinqüenta reais consolam o
sexo em desalinho e quase
faz as pazes com Deus.
Patrícia Gomes
Imagem: Smokedval
Ella
"Se as minhas mãos pudessem desfolhar"
(Garcia Lorca)
Ela, de acordo com o dicionário, flexão feminina de ele. Metamorfose que cabia no vão de uma porta. Algo inconcluso, como um bordado de meio Sol, que não era sequer eclipse.
De mãos meio acorrentadas, com alguns trocados no bolso, era a imagem da perseverança falha.
Nada lhe pertencia.
Apenas recitava ― calada ― alguns poemas de Lorca, em um tempo de desabitar desejos.
Universo incompleto, desprovida de átomos.
Uma nudez, uma paisagem de seca.
Sequer os desvarios lhe perteciam.
Na breve contagem dos dias, se sentia a perfeição de porcelana: Mãos definidas e paradas, coração de singeleza opaca, boneca indiferente com rosto bonito.
E uma metade de um poema esquecido para ser escrito na lápide.
(Jessiely Soares)
25.9.09
deixei de existir n-vezes
por causa da sua existência,
até neguei três vezes
a minha forte essência,
que a onda levou por um tempo,
mas foi devolvida pelo banzeiro
num arremesso porta a dentro
escondi no meio do nada,
sem prazo de entrega
para corpo e alma,
entrei em simetria axial
arrebentei a crisálida,
ficou apenas um ponto:final.
Texto: Lena Casas Novas
Imagem: Google


