
Carta ao Rei
Fosse eu a filha dos devaneios paternos. Fosse eu as linhas auxiliares do esboço, a tangente ou o cateto oposto. Acontece que não sou o que me pedem para ser. Se sou curva, bradam: seja reta! Fosse eu isso ou aquilo, presa, obstada, corrompida... Certamente seria: uma entre tantas e entre nada. Certamente seria: estuprada.
Ah, a liberdade! Corro as mãos pelos girassóis, nua. Deito-me entre eles, toco-me, invado-me. Sou mulher, sim senhor. Pai diz: “Filha minha não é. Não assim, puta!”. Mãe chora, reza, pranteia largamente com as vizinhas católicas: “Minha filhinha, louca!”.
Ah, mamãe, esse é o termo que me define, e é tão belo. Por que chora? Irrompi os limites da sanidade, pois me disseram - e pude constatar com a frieza do mundo – que sanidade é regra, e a regra deve ser obedecida.
Vontade refreada é assassinato inafiançável segundo a natureza. Perpetua marcas, severas marcas. Ilustro tal tese: “Lá vêm os gregos! Querem criar a sociedade, instruir os bárbaros. Lá vem a metafísico, o justo, o correto”. Filhos de uma rameira fedorenta!
Que sou eu então? Sou eu a bárbara, a não instruída... Sou eu a Liberdade. Fito os vizinhos e exclamo: “Quer me comer hoje? Coma-me, coma-me mucho! Tenha uma noite de sexo com a Liberdade, tenha!”. O sinal da cruz é o que recebo em troca.
Mas a Liberdade não vence. Nunca. A Liberdade é a louca, e a louca precisa ser internada. O internato das regras, dos limites, das leis, das ordens. Estupram-me assim, não me dão o prazer, não me fazem querer gozar. Minha vontade, reprimida. Torno-me menina chorona, tristonha. E assim eles vencem!
Lembre-se, ilustríssimo Rei: já derrotei a dor, a epidemia, os senhores feudais e tudo de mais mesquinho e irritante. Mas não – ainda – a moral.
De sua, eterna e utópica, Liberdade.
(Descubra quem é Serena, não pensei em um prêmio ainda, mas até amanhã penso em alguma coisa)












