Pesquisar este blog

28.4.10

à volta das coisas


tenho medo das linhas
à volta das coisas

linhas de luas lentas
ao longe mas à lupa
ondas rápidas que escurecem
com falta de probabilidade

não existem

linhas quadradas de xadrez
penduradas no Anjo
e desfeitas em renda pela noite
à espera do tempo

entre a laranja e o resto do mundo

tenho medo que não existam
as linhas à volta do meu corpo

Flá Perez - vídeo de Aceitação da Loucura

os arroubos do sim em mim



Colecionava arroubos sem nenhuma paz, mas esse me chegava bem vindo vermelho e contraditoriamente sereno, buscando janelas que não se abriam.
Vivi duas portas numeradas de quatro dígitos, que eu somava compulsivamente e o resultado, era sempre sete. Como eram também sete, as faixas de pedestres, brancas fitas fritadas sob o asfalto quente.Não me recordo de ruídos viadutos, como na primeira vez de pôr do sol e vento, mas sim sussurros de um túnel, que penetrei por pupilas lume negras, dilatadas de pura verdade, por cápsulas brancas riscadas sobre uma capa preta.Poderia ser mais uma, mas o que me valia era ser toda e agora. E era já pra sempre o sim, do que não tem volta.
Contorno de lábios, corações e caquís partidos. Amanhecer em claro, cortinas, correntes, sorrisos dentro, refletores âmbar, flashs, chaves magnetizadas e um pequeno anjo louro, na outra mesa de café amanhecida brega, entre famílias e nisseis de gravata com hálito de manteiga.
Cúmplices de delírios reais.Dois navegantes solitários, pendurandos na parede remam rios e o meu desejo de vôo entre pernas, de coisas que se enrijecem com o roçar lento de línguas, grita.O tempo voou rápido demais, enquanto esperávamos monstros de cinema desocuparem o hall central, então nem tive tempo de perceber o despertar azul e lilás que se faria, se não tivesse lutado contra as minhas pálpebras pesadas, contra os ponteiros do relógio, para que ele se arrastasse pelas horas findas, mas jamais perdidas.E eram digitais, não as horas, mas a marca roxa no pulso, quem sabe feita por impulso. E no meu fundo, a saliência encontrada e tocada, provocante de gemidos ainda ressoa.
Pulsava o pulso e latejava, como ainda ardo, vontades desejadas por tantos dias, que já se faziam alguns meses. E era agora. Já sem tempo definido. E o que se faria definitivo também viria sem peso, sem medida. Definitivo, como tudo que se aposta, tudo que se vive bem e gosta, e que passa a habitar vivo, dentro, intenso.O único receio, era de que o telefonema batesse na porta. Me faria de morta, de abajour, de arrumadeira. Paciente incandescente de fagulhas embebidas em sotaques dois.E o teu rosto na horizontal eu fiz de espelho. No gosto da estrada, encontrei teu fio de cabelo que levei à boca, e novamente pensei: "Tô louca".
E estava, estou. Eu sou.Porque somos essa coisa sem nome, sem pronomes, que fecha os olhos na hora da despedida e que segue nostálgica o pulsar da vida.Hoje, sonhei Copacabana invadida. E seu rosto na multidão domingo de areia e ondas e espumas e pingos de chuva sem abrigo.
Sempre água com você, meus sonhos.
Sempre acordada, sonho teu suor mais uma vez, água.
Eu e todos os meus sins, nos plurais orgásticos e vulcânicos, que habitam onde você mora em mim ...


(sheyladecastilhoº

27.4.10

musa manca

























peitos e olhos juntos
curva da fala
mente

nem sofisticada
nem brejeira
é face confessa

sob a semi-musa nua
toca-me os olhos
rubra

passa como quem soluça
sustenta o ritmo
quase não

feito pedra d'água
derrete-me
entre dedos


não chora
ou fala
enrubesce.

(ilustração de minha autoria, protegida por direitos autorais)

26.4.10

O ouvido esquerdo




Não raramente , ouço uma canção e são meus olhos que aplaudem com lágrimas. Nem sempre a boca é capaz de expressar as emoções. Aliás, eu acho mesmo que boca só expressa emoção não tão emocionante.
Eu quando ouço canções, choro. Não cabe em mim tanta beleza e é preciso derramar.
Não posso permitir que as pessoas que eu amo evaporem ilesas de acordes casados com determinadas palavras na voz de determinados intérpretes. É a poesia da comunhão. Quem não acredita em Deus, tenho certeza que com certas canções abrem-se à beleza da dúvida.
Depois de passado o êxtase da beleza eu continuo o pranto. Agora egoísta, é verdade.
Tenho consciência de que também irei.E neste dia restarão muitas canções ainda desconhecidas . Canções que me doem desde hoje a hipótese de não conhecer. E quantos serão os compositores e intérpretes que ainda nem nasceram e que não poderei esperar.
Eu que me vejo um pedacinho de Deus, antecipo minhas preces suplicando que eu seja o Seu ouvido. Mas há ressalvas. Quero ser o ouvido esquerdo, aquele que ouvirá as canções que ainda não existem.
Ele que é Deus e paciente que seja o ouvido direito para suportar tanta palavra impensada de seus filhos.
Eu sou humana. Sou egoísta. E só pretendo ser o ouvido esquerdo de Deus.

A Louca



Qual preço pagarei de novo?

Apenas para ser e manter quem eu sou?

Abro mão das linhas esparsas, das palavras macabras, dos risos escondidos e da névoa maldita que parece precisar exisir. Subo escadas sem parar, nem me posso alcançar já que fujo de mim. Subo degraus inconstantes e, no entanto, a pensante insiste em tropeçar.

Apavoro-me em mim.

Que há na ignóbil natureza, que destrói essa torpeza e finge que é bela para poder me enganar? Que posso deixar meu predador se entregar ao próprio furor e não consigo parar.

O preço é cobrado e mancha com sangue as minhas mãos. Meu sangue, meu peito, minha face de tantos 'nãos'. Escorre sangue, navalha na carne leva essa trama, embola e desova o que há de criança em ti. Leva embora esse intento e devolve o interno que eu perdi.

Escorre sangue... de mim.

Escorre tempo. Leva o que me restou. E deixa este invólucro aqui: um fio entre o traço obscuro e a mente do vão.

Ana Marques

25.4.10

djinn


nasci ontem,
sob teu olhar

no céu pastavam
nuvens perfeitas,
– ovelhas –
num campo azul

teu sonho
tecido em desvario
fortuita essência
sua djinn perdida

presa e resumida
a um trivial
signo de caos,
marcado na tua pele.

sou assim,
um cadinho de confusão
que nada revoga.



(rosa cardoso)


24.4.10

Sobre mensurar amor


Tenho vivido dias de vertigens, meu teto anda muito próximo da minha cabeça, as paredes esticam e encolhem sem pedir permissão. Ainda outro dia eu via sol em plena noite escura, escura e longa. As crianças têm mais noção do tamanho das coisas. Eu poderia te dizer que te amo do tamanho do mar ou da Avenida Conceição, sei lá, mensurar amor, assim como as crianças. Onde perdi minha inocência?
Talvez nos galopes dos cavalos que deixei de cavalgar, na planta que deixei de regar ou teria sido naquela batalha que tive que enfrentar pela primeira vez para não murchar?
Eu te amo, apenas palavras, mas muitas vezes ditas com o coração na boca da santa inquisição.
Vão me queimar na fogueira, eu sinto o calor se aproximando, mas meu corpo permanece frio, ainda é inverno em minhas entranhas.
Tornei-me inverno desde o último verão, folhas de outono não me enternecem mais, aquela esperança de tudo voltar a florescer de você me abandonou.
Eu cuidei do seu jardim, mas as sementes não vingaram.
A dor congelada tomou conta da semeadura.
E fiquei assim, alma fria in natura.

23.4.10

(H) de homem (M) de mulher - II


Uma das maiores queixas das mulheres em relação aos homens é de que eles não lhes dão o devido valor. Temos dois pesos e duas medidas: eles transferem a responsabilidade para elas, afirmando que a mulher não está se valorizando. Pois bem, mesmo com a “revolução” feminina em vários campos da sociedade, o homem ainda é um provedor! Temos indicadores que comprovam isso indiscutivelmente.


A leitura que fazemos hoje é de que as mulheres estão cada vez mais “poderosas”. E isso inclui a valorização pessoal! Não é porque conquistaram a liberdade sexual que...enfim! Mesmo que seja uma verdade que os homens fazem sexo e as mulheres fazem amor, se igualar a eles não garante que vão conquistá-lo no primeiro encontro.


Para Sherry Argov do livro Por que os homens amam as mulheres poderosas”, quando o sexo acontece rapidamente, o homem conseguiu o que queria, pois ele se sente aliviado e sabe que já alcançou seu objetivo, enquanto que a mulher está apenas começando a lutar pelos objetivos dela. A autora coloca que a mulher poderosa não aceita ser um mero ponto de parada ou só uma aventura de uma noite. Esclarece que o homem valoriza a mulher quando ele deseja estar maior parte do tempo ao lado dela e não apenas por uma noite.


O foco da opinião é que, naturalmente o homem não quer compromisso, ele precisa de um tempo para aceitar a idéia de se envolver ou não com uma mulher. Mas como ela tende a querer algo mais sério, deve agir de forma poderosa para se fazer desejada. Isso não está relacionado ao fato de ambos quererem apenas uma noite e nada mais.


Sou uma mulher de 30 anos, solteira, moro sozinha, sem filhos e nunca fui casada. Conheço várias mulheres que estão direta ou indiretamente compondo este perfil. O que se passa? De onde vem essa força de resistir à pressão da sociedade de que temos que casar e ter filhos? Sim. Há essa imposição social de que temos que cumprir um ciclo e desde a infância somos ensinados sobre ele. Por que o primeiro brinquedo da menina é uma boneca? o que dizer então dos jogos de panelinhas, cama, mesa e banho infantis? E por que o primeiro brinquedo dos meninos é um carro? Ah! e ainda tem as armas e bonecos de super-heróis. Faz sentido: a mulher terá filhos e vai cuidar da casa, enquanto os homens com a posse de um carro têm a força! Até os feios podem pegar as mulheres que desejarem.


Acredito que os fabricantes de brinquedos desenvolverão novos conceitos de produtos para o público infantil, talvez sejam mais educativos e funcionais. Quem sabe, reinventem a roda. Percebemos facilmente que há uma ruptura em algumas veias da sociedade no que diz respeito ao relacionamento a dois. Deixo aberta essa discussão.

22.4.10

Eros e Tânatos


Eros e Tânatos

Náufrago em mim mesmo, a procuro
Entre suas pernas o afogamento
esvazio aos arremessos
que a vida não se desprega num só rasgo
não se desentranha na descarga
de um único orgasmo
há sempre um último deleite a ser tragado

E ela sabe
Me recebe
Me insere na argúcia estrutural da prosa
na poesia cadenciada dos encaixes
adere dos ímpetos até os ossos
seus feixes tecidos de névoa e mucosa
E eu apenas falo, falo e falo
até desaparecer

É quando ela se constringe
fecha ao meu redor e secreta
o silencio absoluto.
Mas finge
Sei de cor o repertório dos ardis
que enleia o embuste feminino
quando goza menos do que quis

Dissimulada desabrocha devagar
desarvora aflitivos perfumes
entreabre o corolário dos possíveis
e impregnado dos ungüentos do ciúme
sou assaltado novamente
por tudo que ansiava abdicar
Resvalo para fora

Ela não chora
ao afago oferta o calo, nunca o âmago
Cumpre ocultar o desamparo, me visto
guardo o estilete no bolso
retrátil acendo um cigarro, degusto
e ainda tenho o pulso de ostentar a marra
de quem só tirou um sarro

Sem palavra avanço
ela é como as outras
quer tudo, e não me alcanço.


Iriene Borges

21.4.10

Lua Cheia:

e um animal estonteante
em vestido taja preta
anda com a alma descalça.

Assim todo dia
é dia da caça.

20.4.10





















na seca do sertão
entre cocais
mutuns retundam

em palma vazia
cantam olhos
que não tenho

e eu só queria asas.

(ilustração de minha autoria)

19.4.10

NA TÁBUA DE SALVAÇÃO


quando dizem você,
dentro de um poema
nada é tão simples

entre outras telas
nem sempre onde
estão suas pegadas
só anda você

chegar no nada
às vezes é complexo
são várias terras...

faz parte de uma construção
matemática, quase musical
salas de espelhos
o giz arranhando a lousa
platéia & contraponto
até a cons_ciência

para um poeta
poesia é tábua de salvação
Tudo é questão
de vida e morte
nos códigos morses.

Rosangela_Aliberti

...



Gatinho Risonho, disse Alice, poderia dizer-me, por favor, que caminho devo tomar agora?
Depende muito de onde está querendo chegar, disse o gato.
Não me importo muito para onde estou indo, disse ela.
Então não importa que caminho irá tomar, disse o gato.

(Lewis Carrol, in: Alice no País das Maravilhas)
~ desconheço o autor da ilustração ~

Liberdade


imagem: John Slater

Não terei em meus dias regras que estabeleçam quem eu sou. Quem não me pode respeitar, ausente-se do meu destino. Quem não me pode enxergar, que assista televisões inócuas.

Viver é o abandono das certezas, a captura dos sonhos. Só busco minha face nas pedras do meu caminho. Nelas me apoio e com elas construo o meu castelo. Calço de fantasias as linhas de minhas mãos e vou ao encontro do monte de Vênus.

O cupido me erra, e eu me acerto.

Tropeço em mim, me despedaço e me reconstruo. Cada gota de sangue caída ainda sou eu e me pertence. São as minhas pegadas: ida e volta.

Diga o que fazer, e eu seguirei adiante. Molde-me e eu me esparramarei. Enclausure-me e me tranformarei em fogo.

Consumindo tempos, espaços e paredes virarei fumaça.

Vou em busca da minha Divindade. Da força que rege a minha vida.

Liberdade: diga-me teu nome. Sim, aquele secreto. Diga para que eu te invoque no meu altar e te coloque como Deusa em minha vida.

17.4.10

Patuá



Era, assim, um patuá
o que trazia junto a si.
Não sei dizer ao certo
se era amarrado ao pescoço
ou, quem sabe, dentro do bolso;
ele o afagava em noites frias
e quando verão se fazia
sorria, dizendo fazer comércio
com os frutos da boa fé.
Mas, num dia qualquer, ele 
olhou e não viu sentido no que via;
E o patuá ficou, assim, inerte
num canto qualquer dos dias
e dele a fé baniu.



Patrícia Di Carlo

queixa

























que valha-me
a força dos ais
dos males que invento

para expiar as dores
desse ser seco e calado
que sem querer me tornei

debulhado nas contas
dum rosário sem
sinceridade ou justiça

quem sabe por um minuto
torne-me imune ao mundo
que me sacrifica e ignora

talvez essa ladainha
ore os aves, replique os améns
salve-me de mim!


(ilustração de minha autoria)

15.4.10

Quanto os fantasmas confabulam




A cama sussurra que o conforto destoa

Quanto os fantasmas confabulam em duas horas de repouso?

Ouso os ossos no tapete
nas arestas de um frio
que recrudesce o outro
-o de fora mais tinge e menos magoa

Grudo a orelha gótica no porcelanato
Modulo o silêncio
no sintético obtido em fogo alto
E sedimento adormeço escuro basalto

Acordar?

É uma arte obtusa....
tilintar de cílios pétreos
trucidar de vista
depreciar águas-marinhas
em veios ametista


Iriene Borges

14.4.10

Magma




Percebo a febre em ti, vitais desejos,
Mormaços e tormentas corporais.
E em mim há sempre a ânsia por teus beijos,
Vestal cheia de impulsos animais.

Sem pejo e então repletas de pruridos,
Nossas almas, qual ímãs, porta aberta
Pra viagem laborada nos sentidos,
Imagens e gemidos... descobertas...

Nós dois subjugados por paixão,
As auras enroscadas qual treliça.
Vestido tu com o lume da atração
E eu, com a transparência da cobiça.

Meu sexo, magma dentro de um vulcão;
Presente aí no teu, a erupção.

Magmah

Riscos



Sempre que o vejo,
as garras pulam:

vontade de arranhar
por causa do abandono!

Mas quando ele se achega,
não tem jeito:

ronrono...

simplesmente...

para desfrutar aura, alma e entranhas do corpo

o prazer mistura células e abandona horas perdidas...

do lado esquerdo, o dia é áspero

na minha língua, é doce

na tua boca, água.

uma hora na tarde da eternidade, é pouca.

a façamos louca! forte. suavemente...

pois nós aqui, não consolamos poemas.

nós conservamos delícias, simplesmente.


(sheyladecastilhoº

13.4.10

minto
























aprendi com boa gente
com um certo Pessoa
dando Bandeira
escorrendo Buarque
na boca de Quintana
ou seria Quintela?

divaguei em Mários braços
Peitos e beiços de Pagu
prosas de Passos
perdi-me concreta Haroldo de Campos
talvez Arnaldo Antunes

deitei-me com dos Anjos
acordei com Baudelaire
e ao me ver viúva de Matos
deleitei-me com Melamed!

(ilustração de minha autoria)

12.4.10

poema de amor morto


poema de amor morto

dói como o parto

de um filho perdido...


difícil se desvencilhar

é grito e lamento esquisito

no corpo da folha

hematomas

não passam batidos


filme em branco e preto

voo... de pássaro ferido.


rosangela_aliberti

Galeria de Um Olhar Vibratil - Flickr

Despedaçada

imagem: Fili

Do que fizestes inteiro, eu quebrei e despedacei por ti. Quantas alucinações cabem num coração esfomeado? Em quantos podemos quebrar quem já está em pedaços?

Se tua dor me atingisse, seria a minha menor?

Prefiro adoecer sozinha. Doer em prantos sensorizados com fundo musical. Mãos dilaceradas nos apertos e ruídos que não posso conter. Fogem de mim os barulhos que denunciam a loucura iminente. Não me olhes assim. Olhar-me diminui a cor do teu pranto? Fundamenta minha face reconstruída?

Sorrio hoje e todos os dias com a intrepidez de quem mente para viver, de quem mentirá a dor que sente e a felicidade que não possui. Sorrio e não me perguntarão o que me adoece.

Quem adoece sorrindo cura-se, não é mesmo?

Mas não há cura onde a doença não chegou a existir. Se não a reconheço, ela não está aqui. E de auto-ajuda eu me dilacero em negações eternas. Penso positivamente que todo esse pesar é brincadeira de esconde. Escondo o pranto, parto o tempo em dois e meus pesadelos travestem-se de sonhos coloridos. Cubro escombros com flores e deles finjo jardim.

Chamo-te passado, mas não passou. Chamo-te vivo, mas morrestes. Chamo-te inteiro, no entanto deslocas ruídos em pedaços.

Chamo-te horror e, finalmente!, respondes.

11.4.10

poema sonhado







O tempo ronda sem pressa
sublinha teu nome
nessas cartas perdidas.




Essas em que palavras rodopiam
cansadas e tensas
desse farfalhar de promessas.




Vozes lidas pelas agulhas,
tecidas nas ranhuras
de um velho disco
que roda , arisco,
segredando teu nome.




Tuas letras tesas impressas
nessas cantigas
o tempo sorri e você dispara
subverte versos,
enquanto segue perdido.



.
 
(Rosa Cardoso)

8.4.10

Desfere



Arco entesado
desfiro a seta
e esbato frouxo
entre o gesto
e a meta

Entre a mosca
e o baque
tombo presa
na agonia
do achaque

gume preciso
risca o espaço
no viés da pena

Ah, seja pássaro
e do traço
rufle o poema

Iriene Borges da Silva

7.4.10

Vermelho





‘Inda não sei lidar com a vida,
Se eu subtrair pontos, enlouqueço.
Num mundo tão denso e sem saída,
Vai e vem, do pêndulo o arremesso.

P'ra mim toda morte é um bem final,
Traz tristeza quando vem pra alguém,
Mas não passa de um mero sinal
De que eu posso segui-la também.

Linimento pras feridas de antes,
Ela só mescla aras conflitantes
A passos largos e suspiros vãos.

Paixão e ira - nuances gritantes -
Lamentos de fogo e solidão,
E o vermelho que foge à razão.



Magmah

Imagem: http://emptysoul.no.sapo.pt/vermelho01.bmp

Nem morta!



Se o destrato desse modo impiedoso
(na frente de todos)
é para que fique óbvio e não haja dúvida
do quanto o odeio e dele tenho nojo.

Há quem o queira, é claro:
ele não é assim tão feio.

Mas minha repulsa é tanta, que eu me molho
toda
imaginando a língua deslavada
e suja
abrindo-me as pernas
e a boca à força,
depois de andar por entre outras garotas.

Então eu sofro da abastança insossa,
de esquece-lo rápido e em vários copos,
farto-me dele em outros tantos colos,
(ele afinal não é nenhum Apolo!).

Só não admito, nem a mim confesso,
o gozo intenso que me atravessa
- e o nomeia -
em noite insone de lua nova e cheia,
um pouco antes que eu adormeça.

6.4.10

arcaicos

pétalas tensas da flor curva, cintilam na sacana pureza abrangente do todo
pétalas turvas, envolventes invólucros do vibrante membro licoroso
agora atirada eu, ao cupido Deus das tempestades, por um beijo carnoso
na região laríngea nasce o grito rouco gemido
na sutileza da pélvis, círculos, movimentos espasmódicos tesos vindo
e como é simples essa natureza arcaica, instintiva e sem norte...
arqueado curvilíneo gozo.

a vida após a pequena morte.
sorte.


(sheyladecastilhoº

o aluir dos ares























ventos alísios
tomam a capital
e a calmaria se vai
nas areias revoltas
duma praia de Fortaleza

partiram contigo
o sopro de relicários meus
e teu ventre solar
ainda anseia sonhos nossos
em pequenas tatuagens

ecoam abaixo do equador
as canções eólicas
que tentei aluir daqui
desse peito ressentido
e o som Aluisio sorri
manhãs de Iracema!


(para meu irmão das letras, querido amigo Aluisio Martins, o "maninho")

5.4.10

Fascínio


Seria capaz de amar-te ainda hoje. E quanto mais amor fomentasses em mim, ódio maior eu sentiria. Que dor é esta que rivaliza minha fronte e desperta minha ira? Inconsciente dos teus dotes, infeliz do teu olhar que prendeste o meu. O que irás reservar para minha vida no dia seguinte à nossa verdadeira face descoberta?

Se vejo-te perfeito, tua cor denuncia mentiras nascentes e fontes impuras. Beberei de ti e me envenenarei. Negaste o meu direito de não acreditar em ti, Amor à primeira vista. Quis-te destruído, a face sangrada nas ruas empedernidas de minhas crenças negadas.

Vai-te.
Quero-te fora daqui, amor que me destrói o pulso e a coragem na vida conhecida.

Vai-te.
Quero-te negar o amor e a vida. Vê-lo longe, partido, vencido. Despido do fascínio que só sinto crescer.

Vai-te.
Quero-te ainda mais, quanto mais desdenho este querer.


PS: Este texto foi inspirado na magia dele. Sem sua dor, sua agonia e suas palavras esse texto não existiria. A personalidade múltipla que o pariu, deve seu nascimento à ti, Rod. Obrigada meu querido, por ser meu alter-ego.

4.4.10

presente


I



             Meu professor, meu professor favorito vindo em minha direção. Respire fundo e sorria... Isso garota. O dia tinha começado mal, mas estava melhorando. Hey Teacher! Não me olhe assim. Temos muita afinidade intelectual e, além do mais esse flerte é talvez a coisa mais próxima de sexo que tenho em… em muito tempo. Não me olhe assim. Não sou uma santa! Diabos. Sou simplesmente muito seletiva. Permito-me o prazer de olhar e quando escolho enfim, escolho mal, melhor não escolher por hora.

             Sofro por uns meses, mas é melhor esquecer porque ele é casado apesar daqueles olhares de tirar o fôlego. É só repetir como um mantra que isso é só na minha cabeça. O único indício além dos olhares está no fato de que, do nada ele passou a falar na mulher em toda aula, como um aviso, não sei bem se para mim ou para ele mesmo.
             A paixonite vai passar, mas o fascínio da duvida é que é o diabo.
             Hoje, ultimo dia de aula eu saio da sala dou um adeus universal, mas me enrosco na escada com alguns colegas e ele desce sorridente olhando pra mim, reclama da balbúrdia na escada e começa um estranho ritual de despedida que não termina nunca. Ele não estará na Escola ano que vem por conta do doutorado, e parece pesaroso.
             Não tirou os olhos dos meus e eu fui à única entre as seis ou sete mulheres da escada que recebeu um abraço e um beijo no rosto. O sorriso melancólico nos olhos, o dia nublado faziam piorar meu sentimento perda.
             Eu dei um passo à frente assim que seus olhos escureceram, acostumando-me à escuridão eu sorri. Havia algemas presas àquele olhar, ou aos meus talvez. Prendemo-nos, mas ainda assim partiu.

II
             Sabe aquela sensação de saber, exatamente, o que não fazer? Era essa a sensação que eu tinha ao olhar pra ela. E essa sensação nada tinha com o fato de ser professor. Não ligo pra isso. Era apenas auto-preservação, instinto. Aqueles olhos, aquele cheiro bom na curva do pescoço me faziam ter idéias bem detalhadas sobre o que fazer, mas minha consciência me dizia pra não fazer.
             Ela me lembra outra garota, uma que matei anos atrás. Era uma menina estranha, cujos olhos também falavam mais do que ela. Vagava pelos corredores de outra Universidade em que lecionei meio distraída e solitária. Esbarrei com ela numa noite em que estava faminto e em que minha consciência dormia suavemente embalada pelos Bloody Mary que tinha bebido.
             Qual a surpresa? Nem só de sangue vive um vampiro, embora deva dizer que nada exista de mais gostoso, bebo de tudo, posso comer qualquer coisa, inclusive menininhas distraídas e etéreas. Posso andar a luz do sol, embora doa um pouco, mas roupas escuras e filtro solar amenizam isso.
             Onde eu estava? Ah sim... A garota. Pois é ela deu azar, mas devo dizer q não doeu nada. Fui rápido, estava mesmo faminto. O diabo foi ter aberto o caderno que ela carregava. Páginas e páginas cobertas de letra miúda que me fizeram sentir miserável.
             Matar poetas dá azar e partilhar seus tormentos também.
Os olhos dessa são iguais aos da outra e aposto que ela tem um caderno repleto de poesias em algum lugar.
             Meu tempo naquela cidade tinha se esgotado, precisava sumir. Logo ficaria complicado explicar aos colegas porque eu não mudava, não envelhecia, mas aquela garota me tentava.

III

             Há vários tipos de silêncio, de alguns eu até gosto, mas hoje eu me senti cercada por aquele tipo que acontece nos filmes antes da catástrofe acontecer, antes do assassino aparecer. Não gostei desse silêncio, era aterrador.
             O campus parecia deserto enquanto escapava logo depois da segunda aula. Ouvia meus passos ecoando no silêncio devastador e me senti dentro de um filme de terror antigo. Sabe aquele momento em que você, vendo o filme tem vontade de avisar a personagem que o monstro está bem ali e a tonta não vê? Pois é. Ninguém me avisou.
             Cheguei à rua ainda distraída por essa sensação, foi quando o vi na outra calçada sorrindo pra mim, um cara muito esquisito. O silêncio, aquele sorriso, meu sono tudo contribuiu para me trazer um medo súbito. Apressei o passo. Corri a esmo. Fugi até chegar à multidão, ao caos da cidade. Não ousei olhar para trás, de alguma forma sabia que ele estava perto, como nos filmes eu ia sumir e ninguém notaria.
             Vi um taxi parado do outro lado da rua. Me meti no meio do transito,correndo,com medo de nada,do silencio e daquela sensação. Não demorou muito e ouvi uma freada brusca, uma batida,acho que voei, depois senti algo quebrar na minha cabeça, fez um barulhinho esquisito. Antes da escuridão eu vi o sorriso de novo.
IV

             — São Verdes! Torci para que fossem assim.
             A primeira coisa que me disse quando abri os olhos. Tonta demais para falar. Falar? Eu mal conseguia pensar. Ainda assim, creio que franzi a testa. Era uma frase estranha.  Ele sorriu e tocou minha testa.
             — Seus olhos... Verdes como o mar. Gosto deles.
             Meus pensamentos arrastavam-se devagar em fileiras confusas de idéias desconexas. Não conseguia me mexer. Queria estender a mão para tocar nele, para ter certeza que era real. Um estranho gentil. Tinha olhos de uma cor que eu não conseguia definir, um tom cinzento. Debruçado sobre mim, dava-me uma sensação incômoda e falsa de intimidade.
             — Quem...
             — Não tente se mexer. Fique quietinha... Quem sou eu? Era o que ia dizer?”
             — Sim.
             — Ia te fazer a mesma pergunta... Quem é você?
             Não pude responder ou perguntar mais nada. Uma dor lancinante fez-me gemer. Fechei os olhos. Acho que ele me beijou, não tenho certeza, depois me deu algo para beber e sussurrou.
             — Não precisa lembrar agora. Descanse!

V
             Não havia ninguém espiando a cor dos meus olhos quando os abri no segundo dia. Chamo de segundo dia, mas não saberia precisar quanto tempo dormi se de fato era dia ou se era noite ainda.
             Uma luz neon iluminava o quarto, que se resumia a um quadrado branco sem janelas. Contei as rachaduras do teto para me distrair, ninguém abriu a porta. A cabeça doía de forma atroz. Tentei falar, mas não consegui emitir nada além de um grunhido estranho. Tentar lembrar quem era também doía.
             Quarenta e cinco. Eram quarenta e cinco rachaduras no maldito teto.  Adormeci e sonhei com fogo e sangue.


VI

             — Obrigada por vir. Sei que não a quer.
             — Não quero mesmo, mas você quer.
             — Pode ajudar? Eu poderia tentar, mas ela está ferida demais... Iria demorar demais.
             — Olha o que o desgraçado com a cabeça dela!
             Eu os ouvia como ecos distantes, vozes sem corpo. Semi-consciente. Abri os olhos depois de algum tempo. O mesmo teto, a mesma lâmpada, a mesma dor. Eu estava morrendo, podia sentir. Então eu falei. Melhor dizendo: pensei. Sei agora que eu não poderia falar. Na época eu não distinguia uma coisa da outra.
             — Amanda. Sou Amanda.
             O nome tinha vindo repentinamente junto com uma vaga noção de quem eu era.
             — Você lembrou!
             — Ela não deve se esforçar demais.
             Achei aquela frase engraçada. Esforçar-me? Mexer os olhos era todo o meu esforço. Estava presa em meu corpo. Pensei que estava morta, presa em algum tipo de limbo.
             — Não. Você não morreu. E definitivamente nenhum de nós é anjo ou demônio... Ao menos não exatamente.
             Ele sorriu enquanto o outro. Que tinha olhos azuis e gelados fez uma careta.
             — Você teve sorte de ser um presente!
             Fechei os olhos, a dor me deslizando para o reino do lusco-fusco onde nada fazia sentido.
             — Toma. Acho que é o bastante.
             — Então dê a ela!
             — Não me peça tanto. Dou a você e você mesmo cuida da sua presa.
             Senti que um líquido morno tocava meus lábios, despertando os sentidos por onde passava. Acordando meu paladar. A dor diminuiu. Deixando apenas um leve tilintar na raiz dos cabelos. Abri os olhos e o vi beijar minha testa. Olhos cinzentos e preocupados.
             — Durma agora.
             Obedeci.
VII

             Há vários tipos de vampiros,há aqueles que detestam o que são e sofrem a cada morte que causam,acho que sou um desses. Dentro desse grupo existem os mais corajosos que se matam e os covardes que vão vivendo, matando para isso, mas cheios de consciência inútil, acho que sou um desses.
             E há aqueles que adoram o que são. Matam sem piscar. O cara que quase pegou Amanda é um desses. Ia matá-la para mim, já que, segundo ele eu a queria. O carro não estava nos planos, é claro.
             Ele a trouxe aqui para que eu a cure, mas não sou um anjo curador, embora meu sangue antigo possa curar pequenas feridas, mas não algo assim. Estou apenas adiando a morte dela. Tenho duas escolhas bem simples a primeira é deixar que morra e a outra é trazê-la para mim.
             Aqueles olhos, aquele cheiro bom na curva do pescoço me faziam ter idéias bem detalhadas sobre o que fazer, mas minha consciência me dizia pra não fazer. Um gole de vinho, fez com que falasse mais baixo.

2.4.10

infinito

[Imagem: Larissa Marques]

I

quando o amor

acontece...

o sol me extasia


II

com asas de fogo

rumei ao infinito

— meu limite.


III

vedei o impossível

para que seus

olhos me alcancem


Autor: Lena Casas Novas