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31.10.09

Do Meu Coração de Mulher


Pensando bem, não sou essa mulher fatal que você pensava. Aquelas histórias de sedução foram todas inventadas e esse ar superior, de quem sabe lidar com a
vida, é apenas autodefesa.
Aquelas frases filosóficas, foram só pra te impressionar, pra te passar essa
ilusão de intelectual, na verdade eu ainda nem sei se acredito nos valores
que me ensinaram, quanto mais em frases feitas e opiniões formadas!
Senta aí, vai! Deixe eu tirar os sapatos, desmanchar o penteado, retirar a
maquiagem; quero te mostrar que assim de perto não sou tão bonita quanto
pareço, por isso uso todos esses artifícios. É que no fundo tenho um medo
terrível de que você me ache feia, de que você encontre em mim uma série de
imperfeições.
Sabe, não quero mais usar essa máscara de mulher inatingível, de mulher forte
com punhos de aço. No íntimo me sinto uma pequena ave indefesa, leve demais
para enfrentar o vento e que deseja ficar no aconchego do ninho e ser mimada
até adormecer.
Olha pra mim, às vezes minha intimidade não tem brilho nenhum e você terá que
me amar muito para suportar essas minhas impotências.
Deixe eu tirar o casaco, tirar o cansaço, essa jornada dupla me deixa tão
carente. A convicção de independência afetiva? É tudo balela! Eu queria mesmo
era dividir a cama, a mesa, o banho...
Queria dividir os sentimentos, os sonhos, as ilusões... um pedaço de torta, uma
xícara de café, algum segredo...
Ah, eu tenho andado por aí, tenho sido tantas mulheres que não sou!
Quantas vezes me inventei e até me convenci da minha identidade.
Administrei minha liberdade.
Tomei vinho, troquei a lâmpada, abri sozinha o zíper do
vestido, decidi o meu destino com tanta segurança. Mas não previ que na
linha da minha vida estivesse demarcada uma paixão inesperada.
Agora, cá estou eu, trinta e poucos anos e toda atrapalhada, tentando um cruzar
de pernas diferente, um olhar mais grave, um molhar de lábios sensual... Mas
não sei direito o que fazer para agradar.

Confesso que isso me cansa um pouco. Queria mesmo era falar de todos os meus
medos, "dos seus medos?" você diria, como se eu nunca tivesse temido nada.
Queria lhe falar das minhas marcas de infância, dos animais que tive, do meu
primeiro dia de aula... Queria falar dessas coisas mais elementares, e lhe
levar à casa da minha mãe, lhe mostrar meu álbum
de retrato!
Ah, você queria falar alguma coisa? Está bem! Antes, só mais um coisinha: estou
morrendo de medo que você saia desta cena antes de mim, que você saia, à
francesa, desta história e eu tenha que recolocar minha máscara e me
reinventar, outra vez


Patrícia Gomes
Imagem: Pinçada no Imagebank.com

Deserto de olhos

http://vozesdomar.blogs.sapo.pt/arquivo/368254.jpg



Há muito não chove.

Pregado no lodo que sequer existe
está meu aprendizado sobre a vida:

Uma lágrima solidificada,
uma mão calcária,
uma fagulha,

umas coisas miúdas,
um álbum de fotografias,

algumas rachaduras mortas,
estraçalhadas de ar.

Uns sorrisos que vovô me dava
balançando na sala
numa cadeira com panos.

Alguma frase para ser
o arremate dos poéticos enganos
e essa vida, por demais vazia

Tudo nas cicatrizes que larguei
para o vento fragmentar.

Já que esse lodo, que sequer existe
tem alguma coisa que eu ainda queria:

olhos de açude rachados de seca,
ruínas de mares, e essas manhãs em que eu não mais me chamo.

Sutis mortes que ainda me deixarão
fóssil,
cinzas
ou poesia.




(Jessiely Soares)

30.10.09

Retalhada



Ela invadiu a sala de provas, os manequins estavam todos vestidos, roupas de inverno.
Agarrou-se em meus braços e me arrastou até a ante-sala com olhar de fome. Começou a juntar todos os retalhos – dias de calor intenso – laranja- noites de insônia- roxo, manhãs de abstração- pálido, minutos de abstinência da alma- preto, dias ensolarados caminhando de mão dadas - azul, lembranças de 20 anos passado s - incolor, regresso do seu amor – verde.
Não tinha a menor aptidão para o ofício de coser, mas me usava, implorava sentada aos pés da máquina de costuras – falava sobre desencontros e momentos de gasturas.
Torta, era assim que permanecia - tombada pelos anseios, dúvidas, medos.
Comecei as emendas – ela apenas ditava a sequência das cores, em cada uma relatava as angústias, alegrias, ardores e o cappuccino que ele sempre preparava e levava até a cama depois da noite de sexo descomedido e carícias ternas até adormecerem – efeito do vinho – e pedia que exagerasse em todas as nuances do vinho tinto – do vermelho rubi até o vermelho mais escuro. Sentia-se próxima do passado quase agora que haveria de ressurgir assim que eu, exausta, chegasse ao fim.
Quando o dia amanheceu, seus olhos ainda estavam atentos a cada retalho cosido.

Imagem: google

Ex-passo

O poeta pode chegar à lua

na hora que bem-entender

visitar todas as constelações

ver uma estrela nascer e morrer

.

O poeta pode chegar ao sol

e junto com a terra, orbitar.

escrever poesia a vácuo

deitar e rolar no deserto lunar

.

O poeta pode ver as galáxias

viajar no espaço sideral

ver de perto o eclipse solar

participar da corrida espacial

.

seja nas nuvens ou imerso no mar

não importa qual seja o espaço,

O poeta pode nele chegar

29.10.09

Cadeira velha

(Imagem Google search)

parte da mobília
peça antiga
valor sentimental

não se oferecia
às visitas

não resistiria aos quadris
das gordas tias
e aos pulos dos pequenos
irrequietos filhos
sobrinhos e netos

pensaram mandá-la
junto ao entulho
recolhido em mais
uma reforma

faltou-lhes coragem...

coberta de pó,
casinha de cupins
ainda guardava
a nobreza de ser
testemunha silenciosa

nada pedia
além do canto
sombrio, esquecido
ao lado da porta
do quartinho dos fundos

de onde percebia
tanta vida a passar


Agatha R.

28.10.09

Encontrados na Bolsa da Morta - Flá Perez














Doses doces
e lisérgicas,

dobras
de tules temporais

e colisores
de sílabas.

Acelerador de abatimentos
cardíacos,

tapas
com luvas-de-pilantra

e curvas de rios.

27.10.09




Balada em lá bemol


Vertendo do passado e traduzida,
Escrita hieroglifada em pergaminho...
Ness’hora eu não estava prevenida
Pro vento norte e o cheiro de azevinho.

Bem dizem que um sentido sempre fixa
Em micros, quântuns, píxeis, decibéis,
Aquela imagem n’alma, a mais prolixa:
Memórias que são elos, são anéis.

Estava com Chopin meu pensamento
E não deixou passar esse momento:
Enleado no compasso, em lá bemol.

Um óleo perfumado então me ungiu
O misto de um calor fractal e frio
Enregelante, termo ativo - um Sol...


Magmah

26.10.09

Taquicardia




Procura-se

céu e terra:

- água


Procuram-se

cabos & rosas:

- cravos


No meio das palavras

O silêncio

No meio da droga

O deserto

No meio das pedras sarcasmo e dor


Procura-se mais uma dose da boa poesia

e entre uma e outra bobagem

grandes certezas e doces mentiras.


Rosangela_Aliberti
art by Agim Sulaj

Poesia demente







Minha poesia
é uma louca incendiária,

discípula de Nero
e Calígula, o insano,

mostra-se totalmente desnecessária
e embala a melodia do profano,

fode-se na folia
do seu imaginário,

em doçura, ardor e arrelia,
constante calvário,

corre quente o grafite
e o verbete na veia,

e num ricochete com o seu
serpenteia,

é transfusão, propagação
de um eu que me enleia.


Maria Júlia Pontes

25.10.09

QUINTA

Abro os olhos devagar, tentando não me irritar com o toque do celular. Lizt em versão de bolso me avisa quem está ligando. Demoro um pouco para atender, buscando alguma saída dentro daquela loucura. Não há saída. Atendo enfim.

- Alô.
- Por que demorou a atender? Tá com outro? Pondero antes de responder: -Tava dormindo... São duas da manhã!
- Hoje é quinta! Esqueceu? Você me deve duas horas!

- Não... não esqueci. Só é cedo demais... Posso dormir?

- Não! Ser só dele às quintas, era esse o acordo. Saio de casa e entro no carro que me espera.

O motorista mal olha quando abre a porta e me entrega uma caixa.

- Está atrasada.
Era verdade, tecnicamente a quinta começou à 00h00 min.
- Perdão.
Sinto um leve arrepio me alertando. Presságios confusos rondam minha cabeça. Tenho a sensação de estar avançando para o desastre. O motorista volta-se para mim e diz numa voz neutra:

- Tira a roupa e abra a caixa.

Obedeço em parte, tiro minhas roupas enquanto o carro avança pela madrugada. Abro a caixa devagar. Um par de algemas e um colar com o nome dele gravado, ponho o colar. Não consigo colocar as algemas.

Quando o carro para são quase 3hs, o motorista abre a porta eu desço. Usando apenas saltos altos, o colar e o que me resta de rebeldia. Ele me espera na escadaria. Passo a ele as algemas. Ele sorri e segura firmemente meus braços. Desliza pelas minhas costas, num caminho sinuoso, suas mãos grandes e quentes. Ele me agarra pelos cabelos, os afasta, beija e morde meu pescoço. Segura e acaricia meus seios como quem toma posse.

O corpo ainda vestido do homem roçava em minha pele nua. Ouvi minha respiração entrecortada e tentei me controlar. Os braços doíam levemente. Ele me empurrou para a casa sem me libertar do abraço. A escada range quando afinal subimos os degraus. Eu arfo e começo a tremer levemente. Já conhecia o cenário. Piso de madeira encerada, pé direito alto nenhum móvel além da enorme cama onde ele me jogou sem cuidado. Ele tira as próprias roupas, devagar e cuidadosamente, enquanto diz bem baixinho quase docemente:

- Eu sei do que você precisa!

Beija suavemente minha boca.

- Vou cuidar de você. Você é minha e sabe disso... -a cama range quando ele se move. - Huhum... Sua por todo o dia. - Outro rangido quando ele me vira de bruços, sinto o lençol de seda sob meu rosto e uma liberdade estranha. Nada ali estava mais sob meu controle. Os pensamentos coerentes param, esqueço a multidão de vultos sem rosto que nos observam e apenas obedeço. Ele ri.

24.10.09

Tecelã



Horas a fio passo
Em tecidos nem tão maleáveis

A cardar e fiar...

Calejo os dedos que torcem e

Tentam agulhar os sentimentos claros

Calmos em que tento me emaranhar
Mas a roca roda num desatino hipnótico
E entre um grito surdo e um olhar súplice

Muitas vezes sinto o sorriso
Nascer úmido e ir, aos poucos
Se estampando forte

Numa figura escarlate.

Finalmente consigo parir o fio e

Desde o primeiro instante

Com afinco busco alinhavá-lo

E vou entretecendo palavras que
Já foram usadas, como num patchwork antigo

Remonto, nesse meu coser sem fim,

Novos mosaicos de mim...


Patrícia Gomes
Imagem: Fernando Figueredo

23.10.09

A memória também me falha por compulsão.



Você pode me pegar pela cintura, apertar com força, me beijar a boca. Mas eu nego.Embora não pareça nada disso, tenho certo pé na curva do compromisso. Da última vez voltei para buscar meu par de brincos que esqueci em cima da pia da cozinha, resolvi preparar o jantar, e comer sozinha. As minhas saias se enroscaram no zíper da sua calça de propósito, mas não venha me dizer que não percebeu quando seu olhar grudou no meu naquela tarde exaustiva. Entendo, você me acha compulsiva. Tenho compulsão por viver, apenas queria te mostrar o outro lado do muro do colégio, ousadias e sacrilégios, um bom dia com sabor de rock in roll. The wall, era tudo que eu tinha para te dar naquele dia.Você ignorou minhas pernas, meus olhos, minha boca. E se foi. Eu, atrapalhadamente sem chão, pisei firme, quebrei o DVD. Roger Waters que se foda.
E você...
Quem era você mesmo?
imagem: Gooogle
(MJP)

Cansada de lavar a roupa, eu sentei no banquinho da lavanderia e pensei, pensei, pensei.
Que fim tomou meu pensamento? Que deveria lavar a roupa.
No final, de todo pensamento, vem sempre a imundice, a escória da estupidez que rege na nossa cabeça. Quem disse que imundice é ruim? E que escória é ruim? Eu não.
Mas que pensamos idiotices, que não paramos um segundo é verdade. E que eu, sou só mais uma lavadeira que quer pensar algo extraordinário, é verdade.
Todos nós somos.
Lavo, passo, cozinho.
E essa é a melhor coisa do mundo. Não pensar.

21.10.09

Lição de Astro-Poesia Basica - Flá Perez

O infinito é pra todo lado,

inclusive o lado avesso,
o adentro, o desafora,
o anti-horário e o bifurcado.

Distante igual seja qual for o raio,
ele não tem sentido
em qualquer costado,

o infinito, quando sai correndo,
olha pra gente de soslaio.

Pra sabê-lo é preciso
que ele seja des-medido,
despareado,

bem es x paç ss ado,
a partir do meu umbigo.

Mas tome muito cuidado:
pelo menos comigo,
na altura do coração,
a esquerda de quem sai,

está um pouco engarrafado.

silêncio



minha poesia, também é feita de silêncios

surge de amores que invento

e dos pavores que eu não sustento...

minha poesia se derrama no centro da cama

e ilude que é toda ela, pro (ultra)passado que se engana

e molha a ponta das minhas asas

minha poesia não tem casa

arde e queima feito brasa

tem cheiro de maresia

olheiras de boemia

e no breu da noite fria

é minha poesia quem me guia.

minha poesia é minha mentira verdadeira

e é também, a minha maldade derradeira

é pra quem me segue e me odeia

mas que invade, bate e fica

em quem debocha e me critica

mas minha poesia já morreu

pra você que me perdeu

e eu sei que nunca me esqueceu.

minha poesia hoje é feita de silêncio,

pois não abro minha boca pra falar palavras loucas

e depois de tanto grito, essa noite eu não insisto

em dedicar o nenhum poema, pra essa coisa que foi pouca.

apenas me calo de braços abertos, esperando o forte e certo

que me espera no caminho

com verdade e corpo/ninho...


(sheyladecastilhoº



foto: (sheyladecastilhoº - fotografada por ana paula bandeira

19.10.09

AVISO IMPORTANTE

Como um pássaro na vertigem
não sei direito o que sou
ulltrapasso fronteiras
se fosse um verme...
rastejaria os sentidos
sobre as ondas
de um reconhecimento
instintivo, no terreno

Onde estarei?
se só sei que nada sei

Na pele de um vegetal
eu não enlouqueceria
não compreenderia o cérebro
dos anjos dos homens
nem a língua dos peixes

No piso da madrugada
sem sombra de dúvidas,
algodões andam disfarçados
de nuvens
num céu
de um púrpura,
indescritível.

Rosangela_Aliberti
Atibaia, 18 de outubro de 2009

18.10.09

Língua



Língua solta
sem rodeios
indaga sem medo
a que veio?

Língua presa
cala seco
a dor das ruas
as mortes nos becos,

Língua quente,
um ópio, um vício
transforma o prazer
em seu único ofício

Língua fria
profere nos palcos
o que não acredita,
Maldita!

Língua santa,
espalha o bálsamo
um doce alento
diluindo o tormento,

Língua sua
me lambe, entorpece
em gozo frenético
meu corpo padece,

Minha língua na sua, solta,
meu corpo no seu preso,
e nunca esfria,

eu sei não sou santa,
então eu me rendo
a sua língua vadia.


(para comemorar um ano do meu primeiro livro: "Língua" Expressões Poéticas)

VÉSPER


“Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.
Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia. “


não há nada sob esse céu
nenhuma estrela presente
nada me pressente
só Vésper alheia me paquera

há um teto sob meus olhos
é azul cáustico
escuro e brilhante
estranho

ah, gostaria de vê-la
velar essa luz que insinua
o brilho de estrela nua
já quase ido
esse quase nada de luz
o lusco-fusco a traduz

só tua sombra desliza
em queda livre e fria
se desvia da noite
e busca o sol
que se quebra em cacos,
como devia

e em tantos estilhaços
onde, enfim
você se vê
mesclada à teias de lembranças
em que desfia
o fio dessa trama infinda.

efêmera e brilhante
toda beleza é o instante
todo azul a anula.

17.10.09

Cantos para o Infinito





Nada caberia ali.
E ao mesmo tempo, caberia um rodopio de ares e gaivotas.

Devagar, com a singeleza dos pequenos afetos, eles se iam e voltavam, como marés.
Algumas canções e pingos de água salgada dos cabelos dela assentavam na areia dos pés dele.

Eram, de repente, soltos em meio a tanta conchas, um veleiro. Com grandes velas, panos de cobrir a vida.

Jovens, decerto, porque ainda eram tingidos com as nuances da inocência.
E todo o paraíso ainda era de nuvens tamanhas que adivinhavam aviões.

E ela nunca havia navegado no Pacífico.
E ele nunca havia visto o Sol nascer no Atlântico.

A vida era uma boca de engolir sonhos, no meio do mar morto, sais de todos os tipos agrupados nos olhos.

E a liberdade cheirava a coisas sublimes.
Eram finalmente dois navegantes das areias infinitas.

Além, muito além do ancoradouro.


(Jessiely Soares)

Hiperbolicamente Falho


Hiperbolicamente falho

Trago os erros atados aos
Meus passos

Enquanto pessoas cintilam idéias
Tropeço em astros
Alimento rastros
Sem nada a insinuar
Nos olhos

E a alma me pesa nesses dias


Patrícia Gomes
Imagem: Pinçada do Google

16.10.09

Dolência ofegante


Chegou ofegante naquela noite, algo que eu sabia o incomodava. Essa mania de me expor e ser totalmente explícita quanto ao que penso e quero o incomoda, eu bem sei. O que me salva é a minha falta de medo do perigo. Ele sabe que sou o perigo em pessoa, não me assustam passados estrábicos, verdades esdrúxulas e desejos tortos. Não me assustam nem vivos, nem mortos.
No final o que eu acabo fazendo é arrancar sua roupa, e sem compostura alguma navego no seu sêmen e alma. Não me basta o corpo, não me basta a luxúria do momento e o fogo, sempre vou além, e deixo que me explore até pensar que nada mais há para ser desvendado.
Engano que me dá prazer, eu sei, dirá que uso de certo sadismo quando me exponho e sou submissa até onde você não pode imaginar. Também reconheço que não me lê por inteira, é como se precisasse de uma lente de graus avançados para chegar até onde pretendo estar.
Eu sempre estou lá, querido.
Onde você não alcança.

15.10.09

Convivências

(Foto Google search)


Por conta de engolir
alguns sapos,
meus quadris se alargam
e a garganta seca.

Agatha R.

14.10.09

O poeta, a criança e o elemental





Beijaste-me a alma com versos singelos,
Secaram-me as lágrimas tua canção.
Tão quentes, bem-vindos e sempre tão belos,
Os lábios pousaste no meu coração.

A toda a poesia nós demos vazão.
Vivemos em mundos, os dois, paralelos,
Tal como se os braços, a mente e as mãos
Enfim se tocassem, formando-nos elos.

Tiraste-me um peso do peito, não nego.
O teu ombro é mágico, é transcendental,
Apreço, carinho e aconchego por fim.

Há tantos de ti num conflito de egos:
Poeta, criança e o elemental...
- Qual deles então se mostrou para mim?


Magmah

Canari non mange de la viande - Flá Perez

La vengeance
n'est pas
te decoupeaux dans deux.
Not anymore...

And more:
You're too old
to be compared
à un enfant prodige...

Ponha de lado Baudelaire!
mon dés-Ami,
deixa de lado as citações de Cesares!

Lugar-mais-que-comum il l'a perdu
pour toujours,
cause love is in the air!

Seja em bares
ou sob a luz de um abajur,
como o falso em-nome-de-jesus
engana-se
pensando que acreditamos
que ele realmente crê!

E diz: "um dia o cego voltará a ver"!

Mas, na pretensa escuridão
ele não precisa olhar você.

Desenlaça...

Chora! Publicamente,
sobre-humanecente, chora!

Sabemos sua desesperança
colérica,
carnívora, meia pataca,
em nome de seu Deus, para!

Essa ladainha
de fingida autonomia,
já perdeu totalmente a graça.

(t)eu

um espelho me rouba a alma e me vejo como uma escrava de modernos tempos. no peito a ardência e pelos poros transpiro indecência. filosofo com meu reflexo e como um refluxo, regurgito o que me rejeita, engulo seco e reflito. constato o que me afeta. o mal dos modernos tempos, é a falta de afeto. Volátil se torna o empreendimento, de sustentar qualquer forma de envolvimento. cada um tem o seu tempo. respeito, mas lamento.

minha loucura não me assusta quando é surto criativo e intrigante, revelado e relevante que instiga. me agarro em minha função de artista e te convido para um mergulho no abismo...

mas não mais abismado quero ver, o que vi em teus olhos fugidios, quando a boca minha sem nenhuma poesia, te encharcava de verdades nuas, minhas.

e não fiz por crueldade. foi a mais urgente necessidadade e a mais oportunista vontade.
confesso, foi puro egoísmo... desejo de por você ser amada sem dia nem hora marcada. e foi por não mais sustentar a mentira da despretenciosa amizade, pra satisfazer o meu lirismo e não mais padecer de doce saudade.

não me isento de dias de sofrimento, confesso que em certos momentos eu o acho inclusive bonito, tal como o sol que vi nas nuvens nascer amarelo, eu acredito que amar é um elo, e ainda há um consolo que corre paralelo, mas no infinito, se cruzam esses dois sentimentos... isso eu chamo de amor. é a cura da ferida e naturalmente, são coisas da vida...

ainda sonambulo entre espinhos e buscando esse deus (se há-deus) e te entrego a prova, essa prosa escrita no tempo eu, do que em mim há de nós. aperto o nó. sem dó.

e se por acaso existe algo em mim que te dói, entenda que isso em mim, corrói. mas não corro do que me atrai, eu te atraio pro que te trai. se você não vem, eu vou atrás... quando se ousa por amor, isso pra mim tanto faz. dou valor e sinto paz.

mas eu ainda me sinto mesmo vagueando no deserto e comendo as flores que brotam nos cactus de espinhos retos... mas quando eu te avisto vestido de deus... (oh, meu deus! entenda...) que acaricia a vulgaridade sagrada de um poema, da forma exata que eu mereço... é por isso eu não te esqueço, porque pra isso não tem fuga, não tem preço e não tem cura.
hoje sou eu, mas tem dias que sou ellla... mas sempre que tua, sou nua e crua...
eu sou a sensata santa que te ora e também a devassa puta que te curra!


(sheyladecastilhoº
.

13.10.09

CONTO DE FADA MODELO 2009




Penetrou-me sem pedir licença
Controlou meus desejos
Anulou meu olhar
Violou minha sede
Definiu minha fome
Roubou meus sonhos mais secretos
Escondeu-se atrás de todas as minhas portas
Apossou-se de meus espaços
Destruiu minha ilusão de liberdade
Rasgou meus vestidos de fada
Podou minhas asas cor-de-rosa
Pincelou-me seus tons de cinza
Corrompeu o meu choro
Costurou meu sorriso
Dominou minha cama
Anulou minhas vontades
Sugou de todos os meus fluidos
Secou o que me era vital
E partiu sem aviso.

Não me deixou escolha:
Agora só sobrevivo
Do sangue sorvido
Em testículos recém-decepados à lâmina fria.

E fui viver feliz para sempre.

(Lady F.)


Descubra quem é Lady F. e concorra a prêmio!

12.10.09

Julimeu e Romieta




Romieta sentia-se feliz com Julimeu
Não fosse aquele maldito dia
Que ela percebeu:
Enquanto ele a fodia
Flertava com a cotovia,

Deu-lhe um tremendo pé na bunda
Rumou pra Notredame,
E se vingou com o corcunda,

Mas, isso foi só o começo
Traição tem alto preço,
E cada um que pague o seu
Destemida e mais gostosa
O próximo foi Prometeu,

Hoje, Julimeu perdeu a pompa
Só pensa em entornar cachaça
Foi visto na tal de Sé, a praça
Tentando comer uma pomba.

Pobre Julimeu,
Se fodeu!

E Romieta?
essa, dizem que hoje é perneta.


imGEM: http://static.doucefrance.com.br/upload/4418c8e1cab6a0a4a6df37f188be7b55.jpg

11.10.09

gateado



trago comigo teu olhar
rasguei-o naquela noite
quando te vi trançado
nas filigranas de luar
onde tuas garras deslindavam
segredos inexistentes


desde ontem eu guardo tudo e
traço nas tuas costas as linhas
dessas mentiras densas
em que pensas que acredito






(rosa cardoso)
*imagem: Another_Dreamer_by_Lemmy_X

9.10.09

Razõs em desalinho


Os segredos intrínsecos que cultivo por motivo justaposto, estampo no corpo, nos gestos e no rosto. As lavas que escorrem da barra do meu vestido azul, são ínfimas lágrimas que derramei por amor.
Não digo que não as derramarei nunca mais, nunca digo “nunca”. Aprendemos com o passar do tempo que tudo gira, e pode voltar. Se a minha vida é esse ciclone desatinado e cheio de falhas, fui eu quem escolheu? Dizem que temos escolhas.
O meu ciclone perde o tino, assola, mas não perde o prazer de ser único.
E o seu vento, por onde tem ventado?
Você já percebeu o quanto gosta do vento te resvalando a face?
Sei das cavernas por onde tem andado, entendo a sua maneira de se proteger.
Preste atenção para não perder a próxima chuva, você gosta tanto da liberdade, do prazer das tempestades. Outro banho de chuva pode não acontecer se você se mudar para o deserto.

No Brasil Tudo é festa! [2]

“...Porque sou brasileiro /Eu sou do litoral/ Eu sou do mundo inteiro/ Eu sou do carnaval...” esse trecho da música de Jammil, para mim, simboliza plenamente a vitória do Rio de Janeiro como candidata para sediar as olimpíadas em 2016. Vibrei muito com a conquista. “Eu já sabia!” O Lula, sem dúvida, mandou muito bem como porta voz. Convenhamos, quem escreveu o discurso merecia um premio, estava perfeito! ou vocês acham que foi o Lula? Bem, ele costuma dizer que não sabe de nada.

Ano passado, escrevi acerca do titulo supracitado referindo-me aos motivos que os brasileiros querem para festejar. Principalmente, quando se trata de feriados – enforcados ou prolongados, facultativos ou “puxados”. Está circulando na internet que o ano 2015 vai ser enforcado, já que a copa do mundo vai ser em 2014 e as olimpíadas em 2016. É uma brincadeira de muito bom gosto.

Mas, tem gente querendo acabar com a festa dos brasileiros. Pelo menos, com os “dias enforcados”, de que forma? Segundo as Agências de notícias, vai haver a antecipação da maioria dos feriados que ocorrerem no meio da semana para as segundas-feiras. O projeto foi aprovado em caráter conclusivo pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. Ainda falta passar pelo Senado (se os senadores não enforcarem nenhum dia, é claro!) e se aprovada vai à sanção presidencial.

O projeto é de autoria do deputado Milton Monti (PR-SP). Que vai abrir exceção para os dias 1º de janeiro (Confraternização Universal), Carnaval, Sexta-Feira Santa, 7 de setembro (Independência) e 25 de dezembro (Natal). A proposta também prevê que, havendo mais de um feriado na mesma semana, o segundo passará para a semana seguinte.

Alguém tem que trabalhar! Depois dizem que os políticos não fazem nada...

8.10.09

Compulsão

(Foto Google search)


Sei que prometi
não te alvejar com
meus versos

tampouco me derramar
em melífluas declarações

tenho sido uma menina má
desde que provei tua saliva
e consumi teu sêmem
naquele ritual boêmio

de lá para cá
quebrar os pactos
tem sido minha
especialidade

que se fodam
os que de mim
esperam
qualquer coisa

estou à margem
elevada dessa estadia
alheia à estiagem

e preciso ir

agora

inevitável é sempre
o melhor momento

irromper...

Agatha R.

7.10.09

Aceitação da Loucura - Flá Perez

Não vou à igreja
pedir perdão por ser desigual

– prefiro a ciência
e a hóstia rosa da Roche –

Em minha demência
cetim-lexotan
cai bem a nudez e a vodka
manchando o lençol on the rocks.

Ai, esqueci por sua causa
o que ia dizer!

–acho que tinha a ver
com sua não aceitação
da minha cuca
torta,
sacaneada –

Fique com seus acertos,
suas mortas, filhas-das-patas
chocas
e me deixe

–choque!–

Posso até ser errada,
mas o problema é seu
e dê graças a Deus,
se não entende nada.

(O poema é antigo e já postado em comunidades, 
mas modifiquei mês passado e 
hoje resolvi dedicar aos leitores de AC Cesar)


6.10.09

Um sopro




Um sopro de lascívias que ressoa
E acende os teus desejos à surdina;
Borboleta, acrobata ou bailarina
Que salta, que volteia e sobrevoa.

Num rastro de luxúria perfumada
E um canto, que é inaudível, a se ouvir,
Amor que vai em pétalas florir
Irei eu te ofertar, extasiada...

Preenche os vácuos, m'impede a fuga
E faz alvorecer toda essa bruma.
Encharca minha alma com tua espuma,
Envolve-a com fragrâncias, lava e enxuga.

Migrarei com o vento pra, num só passo,
Rodopiarmos juntos nesse abraço.


Magmah

Vanitas

Não mais poderia ver seu rosto perto do meu. Isso ele já sabia quando foi embora, disso eu não sabia.
Não mais poderia sentir seu cheiro queimando minhas narinas. Pensava nisto todas as vezes que ele ia embora.
Não mais poderia tocar sua pele macia, como um algodão molhado. Quem sabe a textura de seu corpo sou eu e ele, ninguém mais.
Mas estou bem, não se preocupe, não sou dessas mulherzinhas que ficam chorando por causa de homem. Minha existencia tem sentindo sem outrém, meu cheiro se completa sozinho e minha boca se contrai vendo televisão. Sério! Estou bem. Nem me digam que estou velha demais para casar ou arrumar um outro alguém, nem só de romance vivemos, por isso existe jornal, cinema realidade e livros de ficcção científica e dinossauros. É possível viver sem amor. Eu sei.
Contudo quando um brisa corre pelo quarto e meu lençol esfria e abro os braços tateando cega a procura de um corpo, quando choro lembrando ou vivendo tristezas e pego o telefone nem lembrar qual o número que devo ligar, quando pela terceira vez lembro do abraço quente do outro corpo, eu lembro...

O amor é insatisfatóriamente opcional.

Menos o Coração





Posta a venda, dou me em postas.
Qual o pedaço que gostas?
Oferto até os miúdos,
Dou tudo, menos o coração.

Guardo um bocado de não
No que oferto a troco pouco.
Reservo de mim menos do que preciso.
Só para lembrar que ainda tenho juízo
E algum segredo a ser preservado.

Venha, faça ofertas
Tenho as portas e as pernas abertas,
Mas o coração... esse não.
Dele preciso inteiro
Porque seu dono primeiro
Ainda não abriu mão.


(Ester Fagote)

Descubra quem é Ester Fagote e concorra a prêmio)

4.10.09

Eu, cravo




Eu cravo no peito de cada amigo
O emblema de hera
E são poucos que tem esse abrigo
Que me move e me gera,

Eu cravo os dentes na jugular
Do inimigo, e não sangra a olhos nus
Porque cravo sem nele tocar
Não me apetecem os urubus,

Eu cravo rosa no meu amanhecer,
Rego as sublimes almas que me acalentam
O meu doce escorre ao anoitecer,
E finco o coração nos que me desvendam

E amo. Sem peso, sem despedidas
Uma vez que em minhas veias
Só habitam almas benditas.


imagem:google

2.10.09

Pecado escada abaixo*


A volúpia que me arranha as coxas e pescoço é involuntária. Argumentos sutis dominam meus olhos e quadris enquanto as mãos firmes sulcam a matéria.
Do que é possível um desejo, não há como saber, enleia, cose, retalha.
E cai na malha fina das ilusões corroídas pelo ácido da indecisão mesclada a ausênciade vitupérios maiores.
Eu perdi a vergonha nos corredores dos conventos, nas escadarias da sala de confissões.
E decidi que um mortal não mais me julgaria.
AnaSisdelli.
imagem: JPeixe

A sinfonia

Cofres com garras no lugar do coração, sangue feito de tinta cuja cor não é visível, cujo sangue não é palpável, mas é respirável, não pelos pulmões, mas pelo fígado, direto pros olhos. Estes sem lágrimas, seco, isento de sensibilidade à luz.

As mãos não lavam mais embaixo das unhas, não é importante, não é necessário, não é possível. Viraram engraxates de botas. Couro sintético que não eriça ao toque, anel magnético cujo pecado foi atrair o amor. Barganha de sentimentos, maldito comércio clandestino. Não há trocas, só ônus unilaterais de ambos lados.

Minha alma é morta, sou uma carcaça sem dentes, uma fera sem unhas, um sorriso sem face, sem classe, um impasse de ser o que não quero, e não poder escolher meus sapatos, minhas pegadas me foram impostas. Não são minhas digitais.

—Hoje eu não sou
—E ontem?
—Ontem eu era.

Tramitação involuntária da aorta na coluna vertebral. Paralisa as pernas quando apenas atacara o sistema nervoso. Sem pernas, sem pés. O tempo não passa mais, a vida não vive ais, é o calcanhar de Aquiles de Hades. No final das contas, eu perco de todo jeito.

1.10.09

Gênese

(Foto Google Search)

Sirva-me dois
ou três dedos
do teu pior
veneno...

brindemos!

como quem
ergue cristais
ao amor
condicionante

que o risco
não temo

ainda confio
no acaso
e sei o peso
exato
do teu corpo
sobre o meu.

Agatha R.